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Retrato de Adeus: Luis Milman († 30/9/2018)

Francisco Rüdiger*

Faleceu domingo, 30/09, o professor, jornalista, filósofo e ativista porto-alegrense Luis Milman. Tinha 61 anos, viveu em luta, deixou-nos serenamente. Ex-colega de faculdade e amigo querido por mais de 30 anos, foi ele luminar de uma classe média intelectualizada cujo apogeu penso ter passado.  Encarnou singularmente um tipo de indivíduo cujo futuro, tragado pelo avanço da mediocridade em meio ao nivelamento econômico por baixo, parece sombrio no Brasil do século 21.


Dizia Nietzsche que o homem é um campo de forças que a maioria, entretanto, não consegue suportar e que, por isso, tendemos, como indivíduos, a ser caricaturas da espécie, na melhor hipótese: seus comediantes. Milman pagou para ver os efeitos de sua insurreição contra este fato, de ter se erguido contra a corrente mais forte, ao  segurar com o corpo e a alma o jogo de alta tensão em que a vida nos projeta. Foi gigante diante das nulidades que, em massa, aplaude nossa sociedade.


Nele parecia que tudo, mais que intenso, era sempre  extremado mas, ao mesmo tempo, fica-me a impressão de que, apesar disso, nada lhe saía do controle: a luta só cessava com o colapso, não havia espaço para a aceitação da derrota. Por isso, confrontar-lhe os argumentos era tarefa reservada aos fortes, prato inadmissível para os ressentidos que, ao meterem-se em uma discussão, costumam cobrar o reconhecimento protocolar de seu ego e de sua causa – pouco importa o mérito.


Homem de ideias, dono de escrita elegante e precisa, Milman foi destes poucos que decidem fazer da vida motivo de peleia por suas crenças e convicções.  Assim o encontrávamos nas lides jornalísticas, tanto quanto em sala de aula; na conversa numa cafeteria, tanto quanto no ativismo diretamente político. Para o sublime e o desesperador, havia em sua figura muito do pathos heroico diante da existência que eu, como admirador do alemão, vim a conhecer estudando a pessoa de Max Weber.


Polemista de alto nível, Milman também sabia  embrenhar-se com erudição no estudo de sua religião e, para meu desespero, discutir sobre os problemas da filosofia da mente sem medo de enveredar pelas vias de uma nova metafísica. Apesar de, nos últimos, se deixar levar pelos julgamentos sumários, não caia ele no primarismo de reduzir as ideias ao  perfil de seu porta-voz, ao, por exemplo, reconhecer a genialidade filosófica na obra do nazista banal que foi Martin Heidegger.


Certo ou não, cada um fará sua avaliação,  Milman pôs em prática na vida a convicção ética e cidadã de que “somente a análise rigorosa das patologias políticas, associada ao fortalecimento de nossa fé na e compromissos com a democracia e o humanismo, são capazes de fazer a necessária denúncia de sistemas de crenças antidemocráticas, que se alicerçam no ódio, no preconceito e no elogio da violência”.


Militante do Movimento dos Direitos Humanos, ele se notabilizou pela luta contra a propaganda antissemita disfarçada de revisionismo histórico no Rio Grande do Sul. Intelectual público, fez circular textos da própria lavra que, entre nós, gaúchos, marcam, já agora, uma época na história do combate à estupidez e ignomínia. Mal ou bem, anteviu os equívocos governamentais  do petismo e declarou-lhes guerra via sites e páginas da internet, ainda antes de iniciar a era Lula.


Apesar de não raro discordarmos em tantos assuntos, fui sempre admirador de sua coerência e, acima de tudo, de sua integridade como sujeito moral e político. Como intelectual, seus interesses, como dito acima, eram variados – foco e constância havia apenas na sua atitude. Repugnava-lhe em si e nos outros o pecado da falsa aceitação, muito mais o da adulação fraudulenta. Raras foram as vezes em que, por convenção e gentileza, o vi forçado a lançar mão da hipocrisia: homem de rara fibra, marcava-lhe a pessoa a procura pela justa conduta. Ainda que só respeitasse o que lhe parecia digno de tanto,  a compreensão do ponto de vista alheio todavia não lhe era menos característica, nunca lhe vi faltar.


Milman dominou como poucos de minha geração a capacidade de expressar com veemência , mais que suas ideias, as causas com que se identificava. Vivendo em um ambiente intelectual notadamente flácido e estereotipado nas convicções, a postura sempre lhe valeu forte prevenção, e posso imaginar quantas amizades, por isso, não viu se desfazerem durante sua vida. Ele era destas pessoas que são para poucas outras. Apesar de me faltar interesse, competência e vocação, sonhei mais de uma vez em ser seu chefe, só para, horando-lhe o talento, dar-lhe academicamente o emprego que a universidade brasileira, nivelada por baixa e entregue ao comando de burocracias insípidas, sempre lhe sonegou.


Milman - não seria digno dele se eu  mentisse a mim mesmo, era pessoa difícil, sabem todos que o conheceram. Apenas os parvos, no entanto, usariam isso para  fazer-lhe a caricatura. Quem interessado lhe analisasse o gênio, saberia que em seu espírito havia um humor altamente refinado, a capacidade de, gozando da ironia, rir da pobreza que impera em nossos corações. Decerto era ele um cara muito duro, em primeiro e principalmente consigo próprio, ao mesmo tempo em que, escondido,  carregava consigo o dom da altruísmo, sobretudo para os que, sinceramente, lhe procuravam a ajuda.


Penso que ele era destas pessoas que, firmes e em silêncio, sofrem muito, em primeiro por lhes serem intrínseca a consciência moral, que possuía no mais elevado grau; em segundo, por  sonharem alto e acreditarem no que imaginam, em que pese a refutação cotidiana que a isso nos oferece a experiência com nossos semelhantes.


Entre tantas coisas, exasperava-lhe sobremaneira a realidade de nosso país e as atitudes de nosso povo, com as quais ele jamais transacionou por baixo. Dividido entre a fé e a razão, Milman sempre se recusou a fazer concessões morais onde as alternativas lhe pareciam claras e os valores inquestionáveis. Ciente do abismo que nos separa do absoluto, todavia  jamais abriu mão da crença no progresso civilizatório. Outros falarão de sua fé, de sua fidelidade à religião judaica – sobre isto, agnóstico como eu, deve se manter em silêncio e respeito. Quanto ao seu sionismo, discutimos o suficiente para que ele, sem me fazer abrir mão da crítica que me opõe a toda forma de nacionalismo, evidenciasse o quanto é utópico, distante do que está ao alcance dos homens, meu cosmopolitismo individualista.


Dando-lhe meu adeus, prefiro, para encerrar, sublinhar sua virada no sentido do pensamento conservador, a descoberta, por ele feita, de uma série muito notável de pensadores, cujo conhecimento praticamente ainda inexiste em nosso meio intelectual. Decepcionado com a atitude da esquerda para com Israel, Milman investigou e descobriu suas tendências autoritárias, dando guinada para a direita através de movimento no qual igualmente se percebe a reação tradicionalista ao subjetivismo da era moderna que lhe estimulou o desenvolvimento dos estudos sobre a religião judaica.


Em parte desiludido, noutra revoltado, ele moveu-se da Escola de Frankfurt (Habermas, Benjamin) para o conservadorismo erudito (Leo Strauss,  Eric Voegelin), mantendo, da primeira fase, apenas sua admiração por Hannah Arendt. Lastimo pensar que agora, com sua partida, perco o único interlocutor que, por estas plagas, tinha para debater  ideias antimodernas que, independentemente do acerto, possuem em alto nível o que a pensamento nenhum pode faltar, se quiser mesmo ser pensamento: originalidade, erudição e capacidade de nos pôr em questão e de nos obrigar a revisar nossas convicções.   


Doente, Milman aposentou-se antes da hora, sem que jamais lhe tenha sido dada a oportunidade de verdadeiramente desenvolver seus temas de interesse e contribuir para a formação de um novo coletivo intelectual. Tenho viva na mente a alegria ao mesmo tempo vaidosa e discreta com que se expressava ao saber que uma estudante lhe era agradecida pelo preparo para a carreira acadêmica,  outro se mostrara digno de seus ensinamentos dedicando-lhe os primeiros trabalhos, etc.


Serão enormes os desafios políticos e profunda a desorientação espiritual que nosso país terá de enfrentar nas próximas décadas. Para mim é muito triste saber que, diante de tanto, não se poderá contar com a coragem e inteligência de Luis Milman.

* Professor das Universidades Católica e Federal do Rio Grande do Sul, Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo.