"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

A Faixa de Gaza, eu e XYZ (por enquanto)

Abaixo, seguem os e-mails que troquei com um amigo (cujo nome não revelo, a pedido, e a quem, por isto, designo por XYZ) sobre o conflito atual na Faixa de Gaza. XYZ autorizou a publicação dos e-mails. O texto de XYZ está em itálico. O meu em letras cursivas.

Primeiro e-mail: de XYZ para Luis Milman

Estimado, apreciei o teu blog, cujos textos, como de hábito, estão muito bem redigidos. Discordo totalmente do viés sionista, porque acho o nacionalismo (qualquer um) um lixo intelectual. Sobre o fundamentalismo/integrismo religioso (qualquer um), então, nem é o caso de se comentar. Sabes que sou um racionalista agnóstico (ateu, se preferires), mas não abro mão de pateticamente cultivar uma consciência moral.Você me permitindo e se não é perda de tempo de minha parte, apresento umas notas de crítica da ideologia em seu texto. Você reifica Israel, trata o país como um sujeito unificado e, pior, inocenta-o de tudo: nada de mal pode provir do que é instituído pelo seu texto como puro e bom. Intelectualmente isso é tão ingênuo quanto não ver o fanatismo cego, irracional e violento do Hamas, Jihad, Hizbollah, etc. Existem inúmeras correntes políticas e de opinião israelenses que gostariam de liquidar com o problema palestino, seja matando, seja expulsando esse povo da terra que julgam ser sua por direito divino - como entre os muçulmanos. Por outro lado, só se dar conta disso não basta, do ponto de vista de quem quer ter uma consciência esclarecida, em vez de mistificada (desde qualquer perspectiva). Assim como os palestinos perderam uma grande chance em Camp David, Israel aproveitou-as com objetivos expansionistas em várias ocasiões (por exemplo: invasão do Sinai em 1956; ocupação da Cisjordânia na Guerra de 1967 - O Sinai foi muito mais uma circunstância tática do que um objetivo estratégico, como era o outro caso, inclusive fora da zona de tensão com Nasser). Enfim, a discussão vai longe e não creio que contigo valha a pena, porque não nos moveremos de nossas posições. Circunstancialmente (isto é sem avaliar mais amplamente) Israel pode retaliar os foguetinhos do Hamas - estou de acordo. Mas explodir a casa do vizinho favelado, com todo mundo dentro, porque o menino dali atirou uma pedra que atingiu um filho nosso não condiz com o que entendo por justiça; é o que não admitiria um judeu se estivesse na pele ou situação de um palestino de Gaza. Grande abraço do teu amigo!

XYZ

Segundo e-mail: Eu respondo:

Olhe, XYZ, meu amigo.

De fato, discordamos de tudo com relação ao que ocorre hoje em Gaza.

De fato (eu sei) que você é um internacionalista (não torcedor colorado), mas contra qualquer tipo de nacionalismo, inclusive o italiano, o brasileiro, o alemão, o inglês, o palestino e, obviamente, o israelense. Com isto, você monta uma equação muito fácil de resolver, porque ela fica com quase nenhuma variável. Mas esse seu mundo é um mundo que houve (antes do surgimento do Estado Nacional, você sabe melhor que eu), não há e não sei se haverá (a não ser na cabeça de internacionalistas, mesmo os esclarecidos como você). Como não tenho bola de cristal, fico na minha.

Acho que [você] não está mais substituindo a luta nacional pela luta de classes. Porque esta já foi para as cucuias. Restou um romântico apelo ao futuro que não veio. Mas você é assim. Eu não sou. E aí sempre divergimos. Não é de hoje, nós sabemos.

Desfeitas possíveis aproximações neste campo, enfrentemos o campo teórico. Não reifico Israel que nada, XYZ. Teu hegelianismo adorniano não me impressiona. Aliás, eu considero esta, digamos, assim, vertentesoft do marxismo, uma colcha de retalhos. Prefiro o nacionalismo ponderado, balisado por valores humanistas e instutucionalizado no estado democrático de direito. Entre Burke e Roussaeu, sou Burke. Você vai me chamar de pequeno burguês. Tá bom, se isto é ser pequeno burguês, eu aceito o rótulo. Mas você vai me permitir chamá-lo de neocomunista. Aceita?

Notei um tom, em geral, mais agressivo (intectualmente falando) nas suas palavras. Tá certo. Não é sempre que [você] tem a chance de lutar seu bom combate. Seu lema é niilista. "Tudo é uma porcaria e tenho que viver minha vida nesta m....". Sei, no entanto, que resta alguma axiologia humanista muito universal em sua mente. Se não fosse assim, restaria apenas o suicídio.

Olhe, [você] sabe que lhe respeito muito e, sobretudo, depois de tantos anos, lhe admiro e gosto de você. Mas esse debate, mesmo que de vez em quando reapareça, não nos levará a um ancoradouro seguro. Sigo defendendo a minha moralidade e você segue defendendo a sua. Há pontos comuns, importantantíssimos, decisivos eu me atrevo a dizer, nas nossas práticas. Por isso leio você sempre e adorei a sua crítica. Sei que mexi um pouco com você, não foi?

Um fraternal abraço sionista

Luis Milman

Terceiro e-mail: XYZ replica:

Milman , querido, olha só, apenas para precisar:

1. Nacionalismo e internacionalismo se definem um pelo outro: repelindo um, não posso aderir ao outgro sem prejuízo. Se é questão de me definir ou classificar, eu diria: sou cosmopolita e simpatizo com quem pensa e age da mesma forma. Se uma constituição cosmopolita um dia regerá a vida entre os seres humanos, ninguém pode dizer, dependerá deles - mas a idéia está aí desde Kant (contemporâneo do tradicionalista Burke)

2. Apelar ao futuro acho que nunca foi comigo, sempre me identifiquei com a crítica do presente.

3. Jamais te chamaria de pequeno-burguês, até porque, em meu modo de ver, a burguesia e a pequena-burguesia são estratos em extinção, como todas as demais classes. Estamos em meu ver na era da massificação e se isso tem muito de detestável, também tem algo promissor, se não for perdido ou anulado: a era do indívíduo, da individualidade. A mim só interessam os indivíduos dignos do nome, como você é, para mim, pace todas as identidades que eu achi alienadas.

4. Neocomunismo? risos. Ouvira falar do eurocomunismo... risos. Teria de pertencer a um movimento político para aceitar o título, apostar em suas idéias, se existem, etc. Mas você mesmo disse que sou um niilista... Como fica? risos

5. Mas também não me acho um niilista, nem me contento com a crítica negativa. Sinto-me só, ou parceiro de poucos, isso sim, apesar disso não me desesperar mais agora, quando se vai chegando aos 50, já se viveu várias coisas boas, outras ruins, etc. Resumindo coerente com quase tudo o que disse acima, diria que, do ponto de vista concreto, não utópico (como no caso da referência ao cosmopolitismo), tudo o que creio que, embora com dificuldade, pode ser posto em prática de bom está escrito na Ética à Nicômaco.

6. Por isso mesmo, cheguei à conclusão de que, apesar das aparências, não sou um humanista, minhas objeções a algum ato ou ação que julgo imoral não tem tanto ver com o sofrimento dos fracos quanto com as vilanias do mais forte, algo que tem a ver com a ética eudemônica antiga, muito mais do que com a ética humanista moderna.

Mas já estamos, aqui, longe do assunto que deu origem ao colóquio e tendendo, dadas as premissas divergentes em que nos baseamos, a perder tempo com esclarecimentos que, no caso,agora, tem sentido prático (moral) e não teórico ou acadêmico.

Estou de acordo com você, evitemos falar do assunto que originou o intercâmbio, ok?

Abração, XYZ Quarto e-mail. Eu, em tréplica. Meu velho amigo.

Tinha esquecido e você foi oportuno ao recordar-me do cosmopolitismo. De fato, eu ouvi falar nesse senhor (Kant) e até li a Paz Perpétua. Você tem razão, então há uma premissa política que está aí, como você diz. Os povos poderiam aderir a ela e o estado nacional seria extinto. Só não precisava me lembrar que o Kant foi contemporâneo do Burke, né?

Essa idéia de massificação eu não conheço, admito. Mas acredito em você. Há um resgate da noção de individualidade nela? Bem, então não é de todo desinteressante, em princípio, desde que não dependa conceitualmente da idéia de que somos seres abertos para nossas próprias possibilidades. Já escrevi sobre isto, sobre este conceito de compreensão de Heidegger e não concordo com ele, porque dele não se deriva nenhuma ética (não é por nada que o Heidegger nunca formulou uma ética). Penso que desta noção do dasein se extrai uma concepção do ser como poder (como possibilidade, na hermética linguagem do filósofo). E quem se apropriou, disso, com o beneplácito do próprio filósofo, foram os nazistas.

A crítica do presente não exclui antevisões do futuro. Como você mesmo diz ( e aceita, com respeito ao cosmopolitismo, que é só uma idéia), algo deve balizar, na reflexão, a crítica do presente. Na linha do tempo, é o detido olhar sobre o passado (que você sem dúvida possui). Mas é também um projetivo olhar para o futuro. Você também dá uma espiadinha nele, não negue.

Sei que você não pertence a nenhum movimento político. Nem eu. Mas o termo neocomonista não se aplica a militantes ou ativistas apenas. Aplica-se a quem defende a equivocada idéia de lutas de classe e ainda assim quer se despregar do cataclisma que foi o socialismo real. Sabemos que não é possível, porque a idéia de violência revolucionária é conceitualmente inerente ao comunismo. O neocomunismo é parecido com o ornitorrinco. Mas você foi bem claro. Como não foi comunista, não é neocomunista. Aceito isto.

Ética aristotélica, enfim. Sem a utopia kantiana. Uma teoria palpável. Promover o bem, reprimir o mal, por meio da lei que emana de nossopathos, da realidade. Não reprimir nossas paixões, mas partir delas para obter o bem moderado das instituições. Não devemos ceder à tentação da utopia, que projeta o Bem Absoluto sobre a vida social (Platão). A virtude é a moderação. Nem platonismo, nem estoicismo. Tá certo. Aristóteles é muito mais humano e humeano [referência a Hume] que Platão, Kant (os dois são utópícos, Platão mais radical, obviamente) e, claro, qualquer jacobinismo. Acho isto importante. Só que também acho que nenhum imã ou mulá será capaz de aceitar Aristóteles. Eles pensam como Robespierre. É para isto que estou tentando chamar a atenção, nos meus textos recentes. É um perigo, eu creio, para a civilização.

Você é contra a vilania dos mais fortes? Eu também. E não considero que Israel esteja entre os vilões, nem entre os mais fortes. Constato que Israel não se impôs como Estado por meio de choraminguelas e pacifismo. Não, os israelenses sempre foram, como direi, "pro pau". Israel é forte militarmente? É. Mas poderia deixar de sê-lo? Não. Por quê? Porque deixaria de existir como Estado. Israel nunca viveu em paz com seus vizinhos, meu caro. E você sabe disto. Os palestinos são vítimas históricas, antes de mais nada, de seus líderes. Mas esta é uma questão que não quero mais debater contigo. Até posso, não estou fugindo do debate, mas não quero, porque a discussão vai nos arrastar para minudências e pode derivar, de modo circular, para a discussão sobre a validade das premissas de, por um lado, um inexistente direito cosmopolita (suas) e, por outro, de um existente direito internacional (minhas).

Em termos prático-morais, permanço, assim, no meu ponto de partida. No meu e-mail anterior, apontei para nossas convergências, porque (arrisco-me a dizer) sei como você pensa. Mas convergências não eliminam divergências, que podem ser mais ou menos profundas. Nossa amizade despreendeu-se de nossas ações, sempre convergentes. Talvez Aristóteles explique. Ou Hume. Por ora, enquanto combato, de minha trincheira, aquilo que creio ser o bom combate, aceito a sua manifestação de divergência como uma crítica honesta e bem vinda.

Um novo abraço

Luis Milman

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