"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

A Guerra de Israel e o Islamismo Radical


Enquanto transcorre a operação militar na Faixa de Gaza, a ministra das relações exteriores israelense, Tzipi Livni, declarou, nesta segunda-feira, dia 5 de janeiro– ao receber colegas da União Européia, em Jerusalém - que Israel está lutando contra o islamismo radical e o terrorismo no Oriente Médio. “É o momento de cada qual escolher seu lado. No Oriente Médio, há os regimes moderados e os extremistas. Estamos combatendo os extremistas”, disse ela. Livni não poderia ser mais clara. A ofensiva contra o Hamas é uma resposta à gradual penetração do Irã e da idelogia da Irmandade Muçulmana na região. Primeiro o regime de Teerã - controlado por fundamentalistas que se referem a Israel como sendo “a entidade sionista a ser exterminada” – dominou o Sul do Líbano, com o Hezbollah. Depois, nos últmos dois anos, estava erguendo uma estrutura militar e terrorista na Faixa de Gaza, com o Hamas. Objetivo? Simples: Destruir Israel, por meio de uma progressiva guerra assimétrica, ou seja, de uma guerra na qual não estão envolvidos estados ou exércitos regulares, mas um Estado contra milícias fortemente doutrinadas, organizadas e armadas para desestabilizar o inimigo.

Homens-bomba, atentados suicidas, seqüestros de soldados e lançamentos de foguetes contra civis de Israel são os métodos utilizado pelo terror. Métodos calculados com frieza e determinação, para criar pânico na população do Estado a ser destruído, minar a confiança das pessoas nas suas forças armadas e, ainda fortalecer a própria posição terrorista junto à opinião pública árabe. A Palestina, dizem, é a frente de combate avançada do Islã. A única forma de derrotar os sionistas, reiteram as lideranças do Hamas e do Hesbollah, é atacando-os em seus pontos frágeis: eles não podem ter uma vida normal, suas crianças devem ter medo de sair às ruas, seu governo deve ser encurralado. As retaliações militares apenas fortelecem o martiriológico essencial à doutrina fundamentalista e deflagram protestos contra Israel em todo mundo. O Hamas não só sabe, como espera por isto. Ou seja, para os líderes e militantes do Hamas e do Hezbollah, mesmo vencendo suas guerras assimétricas, Israel é sempre derrotado, porque fica cada vez mais isolado, cada vez mais vulnerável. E esta é a meta, até que se possa controlar um número suficiente de governos árabes para, então, lançar a ofensiva definitiva contra o “Estado satânico” que foi erguido em meio à terra que pertence ao Islã.

Não há diferença alguma entre a Irmandade Muçulmana (sede no Egito), o Hamas (que emergiu dela em 1987), o Hezbollah, a Al Quaeda e o Irã, o até agora único governo controlado pelo que a ministra das relações exteriores de Israel chamou de “extremistas” no mundo muçulmano. Todos estão comprometidos com a destruição de Israel, com a expansão dos governos totalitários que se fundamentam na shaaria (a lei islâmica) pelo mundo árabe e muçulmano e, por fim, com a destruição do Ocidente. Pode parecer exagero, mas não é. Escrevi sobre essa doutrina em 2004(http://www.espacoacademico.com.br/035/35cmilman.htm) e recomendo a leitura do excelente livro de Lawrence Wright, O vulto das torres. A Al-Qaeda e o caminho até o 11/9 (São Paulo, Companhia das Letras, 2007) para quem desejar se iniciar no assunto. Quando afirma que todos devem escolher de que lado estão, Livni fala não apenas em nome do governo israelense. É claro que ela o faz e, assim, reafirma a determinação de seu governo de combater o Hamas (logo o Hezbollah e, logo o Irã) em todas as frentes. É uma determinação não só legítima, mas essencial para a existência de Israel. Mas Livni também alerta mais uma vez sobre o perigo que representa a ideologia política do islamismo radical (não confundir com a religião islâmica).

Uma ideologia que já é defendida por mais de 150 milhões de pessoas no mundo. No Ocidente, ela estranhamente vem sendo acariciada pelo que restou das mentes de esquerda. Desamparada de seus fundamentos mais consistentes, como o marxismo, que desmoronou diante do "teste da realidade" (o custo desse teste foi descomunalmnentedesproporcional, se levarmos em conta as milhões de vidas ceifadas pelo socialismo real em todas as frentes onde a sua aplicação foi levada a cabo e o desastre moral que decorreu desta aplicação), a esquerda passou a reproduzir-se em torno de um ativismo jacobino que Marx e Trotsky, para ficarmos com estes, considerariam, no mínimo, caricatos: a defesa do aborto, o feminismo, a solidariedade terceiro-mundista, o multi-sexualismo, a denúncia da degeneração da cultura em mercadoria e outros motes mais. Pois é essa esquerda que abriu seus braços para o radicalismo islâmico, por encontrar nele o fervor de uma mentalidade revolucionária capaz de mobilizar as massas contra o Império e seus estados-títeres, Israel em primeiríssimo lugar, a uma, por ser um país judeu e, a duas, por estar encravado em terra "islâmica".

Não importa que a mentalidade revolucionária dos Irmãos Muçulmanos tenha reupulsa radical a tudo que essa esquerda defende (menos ao anti-semitismo, é claro). Importam apenas os pontos de convergência, a luta contra o inimigo comum. Assim, é frequente lermos esquerdistas (no Brasil, ligados ao PT, ao PSTU, ao PSOL, ao PCB) acusando Israel de ser nazista, de provocar um holocausto palestino, de ser um país-gueto. Todas as fórmulas -vejam, essa propaganda extremista acusa os judeus de cometerem os crimes dos quais foram vítimas- também são usadas pelo Hamas, Hezbolahh, Irã e Síria. Do ponto de vista da esquerda, é como se Trostky avalisasse uma aliança entre os bolcheviques e a Igreja Ortodoxa Grega, para liquidar com os partidos democráticos na Rússia.

Assim, testemunhamos a "aliança profana" com os revolucionários islâmicos e entendemos a razão pela qual Hugo Chavez e Raúl Castro, mas também Lula - este por meio do Itamaraty e do PT- perfilam-se com os lúcidos líderes do Irã e do Hesbollah na denúncia dos "massacres" que Israel está cometendo na Faixa de Gaza. Na época em que a União Soviética ainda existia, apoiar Nasser, a Líbia e a OLP era mais fácil. Hoje, restaram os xeiques, os mulás e os imãs do radicalismo islâmico para conduzir a marcha das massas oprimidas em sua luta final contra o capitalismo. Em lugar do mito soreliano da greve geral, temos o mito contemporâneo da jihad. E a mente revolucionária inflama-se de paixão pela mudança radical do mundo.

A ideologia do islamismo revolucionário, se não for combatida, além de desestabilizar os regimes árabes moderados, pode alastrar-se pelo próprio Ocidente. Neste momento, portanto, convém atentar para o que está ocorrendo em Gaza, sem ceder às simplificações da mídia imediatista, aos clichês protocolares de condenação da ONU - que é dominada pela mentalidade terceiro-mundista- ou de uma Europa imobilista e omissa, que só desperta para o que ocorre no Oriente Médio quando Israel responde aos ataques que sofre.




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