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"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
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A Igreja e o Holocausto

No último dia 24 de janeiro, um sábado, o Papa Bento XVI levantou a excomunhão de quatro bispos consagrados pelo arcebispo ultratradicionalista Marcel Lefebvre, em 1988. O francês Bernard Tissierde Mallerais, o suíço Bernard Fellay, o espanhol Afonso de Galarreta e o inglês Richard Williamson foram readimitdos na Igreja, apesar de terem sido ordenados contra expressa determinação de João Paulo II, em 30 de junho de 1988. Dois dias depois da consagração, João Paulo II publicou, motu proprio, sua Ecclesia Dei, declarando ilegais as ordenações episcopais e escomungando Lefebvre e seus seguidores, todos da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, criada em 1970, pelo arcebispo cismático, como tentativa de se opor ao que ele denunciava como sendo uma protestantizaçãoda Igreja, levada a cabo por João XXIII e Paulo VI, no Concílio Vaticano II.

Assuntos internos do Vaticano, até aí. Problemas externos surgem na medida em que um dos quatro bispos readmitidos por Bento XVI, o inglês Richard Williamson, declarou, a uma televisão sueca, que não houve câmaras de gás nazistas durante a II Guerra Mundial e que apenas 300 mil judeus morreram em campos de concentração. Williamson é um apologista da negação do Holocausto, uma das formas mais abjetas de apregoar o antissemitismo, utilizada por neonazistas, ultra-esquerdistas e islamofanáticos. Detive-me sobre a natureza, as origens e a propagação da negação do Holocausto no ensaio Negacionismo: gênese e desenvolvimento do genocídio conceitual, publicado em Neonazismo, Negacionismo e Extremismo Político, org. Luis Milman e Paulo F. Vizentini, Editora da Universidade/Corag, Porto Alegre, 2000. No mesmo livro, trata do tema o historiador e cientista político Dietrid Krause-Vilmar, da Universidade de Kassel (Alemanha). Recomendo ainda, para os interessados, a leitura do clássico sobre negacionismo, Os assassinos da memória, do historiador francês Pierre Vidal- Naquet.

A readmissão do bispo inglês por Bento XVI teve repercussão imediata. O Grão Rabinato de Israel, na terça-feira, dia 27, publicou nota anunciando o rompimento de suas relações com o Vaticano, em protesto pela decisão do papa. "Sem um pedido de desculpas e reconsideração do ato, será difícil continuar o diálogo", afirmou o diretor geral do Grão Rabinato, Oded Weiner, em carta endereçada ao cardeal Walter Casper, presidente da Comissão para Releções Religiosas com os Judeus, do Vaticano. Na quarta-feira, 28, Weiner recebeu telefonema do secretário de Casper, confirmando o recebimento da carta. O secretário, segundo noticiou o Jerusalem Post, disse compreender os sentimentos que a carta e expressa e a dor causada pelas declarações de Williamson. Mas acrescentou, sobre a decisão papal, que se trata de um assunto interno e adiantou que uma resposta ao Grão Rabinato será enviada, pelo Vaticano, nos próximos dias.

Na mesma quarta-feira, 28, Bento XVI, sem referir-se à forte e inédita reação rabínica, tratou do tema do Holocausto (oficial e internacionalmente lembrado no dia 27 de janeiro), dizendo sentir total e indisputável solidariedade com os judeus, durante sua audiência geral da semana no hall Paulo VI, do Vaticano. "Assim como renovo minha total e indisputável solidariedade com nossos irmãos, sinto que a memória do Shoá deve alertar a humanidade para refletir sobre o poder impredicável do mal quando [este] conquista o coração dos homens".

Considero, com os rabinos, que a declaração não anula a ação de reabilitar Williamson. O papa não se retratou pelas declarações negacionistas do agora recuperado bispo, como já o fizera com respeito à pedofilia de sacerdotes católicos. É grave, portanto, o quadro, pois insere-se num cenário de atrito com as mais representativas lideranças judaicas mundiais. Lembro que Bento XVI, sob forte crítica de rabinos, re-introduziu, em 2007, no Missal Romano da Sexta feira Santa (ver artigo nesse blog) a Oração pelos judeus, de forma a conclamar os judeus para a conversão e salvação dentro da Igreja.

Ora, mais ainda se ampliam as preocupações, diante da onda de antissemitismo que se desencadeia no Ocidente, depois da ofensiva de Israel contra o Hamas. Lembremos que as acusações lançadas contra Israel e repercutidas com naturalidade pela mídia, são as mais espúrias e improcedentes. Saliento a tentativa de nazificar o Estado Judeu, por meio de comparações entre a situação dos palestinos em Gaza e na Cisjordânia e a situação dos judeus europeus durante o período hitlerista. Temos aqui um esforço de relativização absurdo, porque o Holocausto, sob qualquer perspectiva, foi um planejado processo de genocídio aplicado, que ceifou a vida de aproximadante seis milhões de judeus. Entretanto, tem se tornado comum o emprego dos termosextermínio, massacre, holocausto, limpeza étnica e genocídio para caracerizar as ações militares israelenses, entre comentaristas que tratam do assunto na mídia ocidental. Mais ainda, devo lembrar que a nazificação de Israel é, em termos de propaganda, assumida pelos palestinos e por seus apoiadores contra a entidade sionista, sejam eles neonazistas, islamófilos seguidores da doutrina da Irmandade Muçulmana e do Irã, sejam esquerdistas antissionistas. Há sem, dúvida, um inquietante ambiente onde proliferam associações bizarras entre aquilo que os alemães fizeram com os judeus e aquilo que os judeus estariam fazendo, sob a ótica dos antissemitas, com os palestinos.

Nada mais detestável e, no entanto, nada mais real. Vozes lúcidas no campo da história, da filosofia, da ciência política e do jornalismo são abafadas pelo estrondo dos tambores antissionistas. Se você é judeu, é suspeito para falar do conflito entre Israel e Hamas. As ações da organização terrorista que governa Gaza , cujo propósito aberto é aniquilar o Estado Judeu, são consideradas ações de "resistência à ocupação", mesmo que não haja ocupação, mesmo que haja ataques sistemáticos de mísseis contra Israel, mesmo que tudo demonstre o contrário. O delírio faz a razão sucumbir diante da fantasia e parece que estamos todos delirando, quando abrimos um jornal ou acesssamos sites e blogs na internet: Israel comete crimes contra a humanidade, pratica sistematicamente uma criminologia de guerra. Pululam na mídia mundial "teóricos" que desbravam a real história do sionismo invasor e mitifica os palestinos. O maniqueísmo repulsivo, do ponto de vista moral, é aplicado repetidamente. De um lado, Israel, um colosso militar, logo imbatível e opressor, de outro os palestinos, que sequer possuem exército, logo vítimas e oprimidos.

Falsas dicotomias, desapego da história, funcionalidade mental militante e imoral, antissemitismo compulsivo que coloca Israel no centro dos problemas do mundo. Some-se a isto a minimização do Holocausto, sua negação e relativização, e a nazificação de Israel; tudo ocorre em apenas pouco mas de 60 anos depois que a hecatombe nazista abateu-se sobre o povo judeu. Mesmo assim, Bento XVI reabilita um bispo negador do Shoá. O Vaticano não pode ser acusado de descuido. Concluo que a recuperação de Williamson foi intencional e Bento XVI deve ter calculado os danos que sua ação iria provocar. Espero que o papa atual se dê conta de que sua ação foi, do ponto de vista judaico, inaceitável. Ele pode retratar-se, como já o fez, relembro, na ocasião em que desculpou-se pela prática da pedofilia por sacerdotes. Em permanecendo as coisas como estão, sua posição é injustificável e perigosa. Ela estimula a dúvida sobre o Holocausto entre crentes mais pedestres e antissemitas que, como sabemos, existem. Estes podem, agora, invocar até a autoridade de um bispo para justificar seu ódio aos judeus.

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