"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

A metástase e o Fórum Social Mundial

Fiz menção, na parte dois deste trabalho, ao conhecido Manifesto de 1848, no qual Marx e Engels sumularam a interpretação comunista da realidade socioeconômica e propuseram diretrizes de ação para os partidos comunistas. Podemos perceber a atualidade daquele panfleto, junto ao ativismo da esquerda marxista, em duas instâncias de articulação internacional, erigidas depois da queda da União Soviética; o Foro de São Paulo, criado em 1990 e o Fórum Social Mundial (FSM), que o PT inaugurou em 2000, em Porto Alegre. Sobre o Foro de São Paulo, não me ocuparei aqui e remeto os leitores às exaustivas análises feitas sobre ele pelo filósofo Olavo de Carvalho. Minha intenção é tecer alguns comentários sobre o FSM, que se reuniu, mais uma vez em Porto Alegre, em janeiro de 2010. Os romeiros do comunismo e seus companheiros de jornada passearam, alegremente, pela cidade, entoando a ladainha de um novo mundo possível. Notei que na mesa de abertura dos trabalhos do evento estava nada menos do que Olívio Dutra, aquele que desastrosamente governou o Rio Grande entre 1999 e 2002. Dutra, a quem Diógenes de Oliveira (VPR), o assassino do capitão Chandler, chamava de Truta, é uma espécie de relíquia do PT. Na CPI que devassou as enervações de seu governo com o crime organizado, ele até que saiu ileso, considerando-se que nem mesmo as consequências de suas aventuras libidinosas com companheiras, inclusive de bandas orientais, quando presidente do sindicato dos bancários do RS, foram expostas. Olívio Dutra define-se como cristão-marxista, corrente política exótica que, no entanto, não é estranha ao DNA petista. Verdade é que Marx e Engels, os autores do 5º Evangelho oficial, não são responsáveis por esta síntese. Mas para a moralidade viscosa e a racionalidade binária de trutas, o que os evangelistas afirmaram no Manifesto sobre o socialismo dos párocos não tem lá muita importância. Para eles, o que importa é lutar contra o "capitalismo apodrecido".Trutas e olívios de muitas nacionalidades, que estavam novamente aí a debater o futuro da humanidade, não sabem sequer o que significa o mecanismo de formação de preços numa economia complexa. Seus teóricos, entre eles Dilma Roussef, não se desvencilharam dos grilhões do corporativismo e da economia planificada. Alguns deles, como Paul Singer, aquele mesmo do Polop - que também andou por aqui- divisam na China o modelo a ser seguido. Desejam aplicar a dose cavalar de autoritarismo político e de gigantismo estatal na condução para um socialismo de mercado. Os chineses abriram-se para o capital privado internacional, desde o início dos 80, para tirar das trevas a economia de fundamentos marxistas da era Mao. A China é um fenômeno de crescimento econômico, sem dúvida, porque sua elite dirigente - depois de jogar no lixo o Livro Vermelho e o culto a triconomíase - deu-se conta de que sem mercado não há economia. Mas o mercado chinês é dirigista e está amarrado à atuação do estado como principal agente econômico, parceiro majoritário de investidores estrangeiros, na produção de bens de capital e consumo. Pela extensão de seu território, que é mantido coeso às custas de brutal repressão e pelo tamanho de sua população, a China ergueu um mercado interno e uma economia competitiva em termos globais, mas vive na tensão entre variáveis políticas e econômicas : a manutenção e aprofundamento do dinamismo de mercado, a preservação dos privilégios da elite e da burocracia dirigentes e a manutenção do sistema repressor de liberdade política.Isto quer dizer que o sistema chinês, apesar de eficaz, até aqui, em termos econômicos, sobrevive às custas da opressão, porque não sinaliza nem remotamente para a distensão política. Dissidentes são encarcerados e mortos, a imprensa é severamente censurada, os conflitos regionais e étnicos são solucionados, implacavelmente, mano militare. Conclusão: aquela utopiazinha "científica" de Marx e Engels, que teve lá sua fase revolucionária leninista, stalinista e maoísta, só alimenta os sonhos de polopianos e basbaques preguiçosos, mais uma vez reunidos em rebanho no Fórum Social Mundial.No FSM, os petistas e neo-revolucionários confessavam: abriram mão das armas. O que não confessam é que apostam na implantação de regimes totalitários pela via do envenenamento gramsciano da cultura "burguesa", no qual todas as aspirações dos "oprimidos" e das "minorias" podem ser catalisadas por um discurso aveludado de viés progressista. Entram, aqui, as reivindicações militantes: marxistas, sindicalistas, ambientalistas, homossexuais, beateiros, racialistas, camponeses e extravagantes escapistas de qualquer matiz, que marcham unidos contra o cruel capitalismo e as liberdades individuais, movidos pela antevisão do arcaico e da comuna primeva. No campo das utopias, até que tudo bem, cada um com a sua. Mas há o teste da realidade: como tornar viável a transformação redentora sem violência, sem fome, sem ódio?Somente esta questão pequena já seria suficiente para que voltássemos aos livros de história e filosofia, não falo nem de lógica. É indispensável lembrar da imundice humana e da devastação em todos os níveis produzidas pela experimentação comunista. Não há correção de rumo possível para a ideia monstruosa de que somos igualados por nossas necessidades biológicas. O comunismo moderno, materialista e pós-platônico de Marx, Engels, Lênin e Mao - o platônico, aristocrático, já era suficientemente aterrador- nos levou e pode nos levar novamente a catástrofe, porque insepulto, apesar de tudo o que sabemos dele.Marx era um historicista hegeliano, que substituiu o espírito pelas forças de produção material. Suas premissas teóricas, se analisadas - no sentido russelliano de análise- são essencialistas e, do ponto de vista lógico e metafísico, revelam-se como quimeras. Marx sequer definiu seu conceito articulador central, o conceito de classe. Vejamos como tal conceito ordena suas análises, no texto clássico, os Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844), I: "Com a própria economia política, usando suas próprias palavras, demonstramos que o trabalhador afunda até um nível de mercadoria, e uma mercadoria das mais deploráveis; que a miséria do trabalhador aumenta com o poder e o volume de sua produção; que o resultado forçoso da competição é o acumulo de capital em poucas mãos, e assim uma restauração do monopólio da forma mais terrível; e, por fim, que a distinção entre capitalista e proprietário de terras, e entre trabalhador agrícola e operário, tem de desaparecer, dividindo-se o conjunto da sociedade em duas classes de possuidores de propriedades e trabalhadores sem propriedades".Não me deterei no equívoco da predição. Registro apenas que ocorreu o contrário do que Marx anunciou. No capitalismo, os trabalhadores melhoram de vida na medida em que também são consumidores daquilo que é produzido pelos vários ramos da indústria e dos serviços. Já o risco do monopólio, do oligopólio ou do cartel é atenuado precisamente quando há maior competição (a guerra entre os ganaciosos, como a caracterizou Marx). A predição é muito precária, do ponto de vista econômico, mas quero abordar o conceito de classe, que Marx jamais definiu, e que pode ser entedido a partir da noção de agregado social uniforme, constituído por meio de produção e distribuição de valor. "A desvalorização do mundo humano aumenta na razão direta do aumento de valor do mundo dos objetos. O trabalho não cria apenas objetos; ele também se produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e, deveras, na mesma proporção em que produz bens"(Manuscritos, I).Assim, temos que na base do conceito de classe está a ideia de valor-trabalho dos economistas clássicos. Temos aqui a ideia de que o valor de algo é igual a quantidade de trabalho investido nela e que este valor, no capitalismo, se separa do trabalhador (se aliena), tornando-se mercadoria, capital, que Marx define como "trabalho acumulado" (Mabuscritos, III).."O produto do trabalho humano é trabalho incorporado em um objeto e convertido em coisa física; esse produto é uma objetificação do trabalho. A execução do trabalho é simultaneamente sua objetificação. A execução do trabalho aparece na esfera da Economia Política como uma perversão do trabalhador, a objetificação como uma perda e uma servidão ante o objeto, e a apropriação como alienação". (Manuscritos, I)Se somarmos a este conceito a tautologia de que quem possui a força de trabalho é o trabalhador, chegamos ao genial insight de que tudo o que é produzido pertence a quem trabalha. Logo, tudo pertence aos trabalhadores, ao proletariado que vem da palavra prole (muitos) e que formam, na sociedade industrial, o agregado de trabalhadores. Se o que produzem é deles, aquilo que produzem deve ser repartido entre eles. Nada é mais privado, nem o que consomem para sua subsistência, nem para sua cultura, nem para sua reprodução. A propriedade privada se afigura, como Proudhon antecipara, como roubo. O ladrão é o burguês, que lá na fase adiantada do feudalismo, surgiu como associado de corporações de produção, depois como dono de manufatura e, depois ainda, como dono de indústria, que emprega, mediante salário, os proletários.Assim, a indústria é uma propriedade coletiva usurpada pelo burguês, em cujo bolso fica a diferença entre a miséria que ele paga para o proletário trabalhar e o lucro que aufere ao colocar seu produto no mercado. Aceitemos esta visão medíocre da relação de emprego, despreendida da tese do processo de acumulação do capital, para prosseguir no argumento. Marx chamou esta diferença de mais-valia. Logo, quando se termina com a propriedade privada, se termina com o ladrão e se termina com o mercado e a mais-valia. Tudo fica de posse do real produtor coletivo, o proletariado, que terá suas necessidades satisfeitas e não será mais explorado. Essa é a economia política de Marx.Qual é o problema com ela? Há muitos, mas o mais evidente é o seguinte: o valor de um produto não é função de uma necessidade de subsistência. Produtos estão sempre submetidos a uma avaliação de utilidade e demanda, ou seja, seu valor é constituído pelo que seu consumidor espera fazer com ele e pela expectativa de que ele possa ser encontrado. Eu busco consumir meio quilo de pão para alimentar, diariamente (juntamente com outros produtos), minha família. Se vou ao mercado e há apenas um quarto de quilo à disposição, o valor do pão aumenta. Se há farta oferta de pão, o valor diminui. Se a oferta é equilibrada com a demanda, o valor se mantém constante. Isto vale para qualquer produto. Se vou à praia no verão para vender cobertores de lã, meu cobertor não terá demanda, não será útil e, por isso, seu valor será muito pequeno. E o valor se expressa no preço. Sem mercado, não há como fazer cálculo de preço. E sem cálculo de preço, não há como eu, que sou produtor de pão ou cobertores (seja individual, seja associado com outros), antecipar demanda presumida. Ora, sem antecipação de demanda presumida, como calcular níveis de produção?Moral da história: tire o mercado da economia, como Marx, o gênio, queria - e ele dizia isto expressamente- e você não tem economia. Uma asneira colossal. Pode-se discutir se o mercado se auto-regula, se não, se há dose de intervenção benigna e em que nível, do estado - que Marx, depois de dizer que deveria estar sob controle dos proletários, seria extinto- e outras coisas, que mereceriam discussão mais detalhada, mas paro por aqui, porque meu ponto já foi demonstrado, pela lógica elementar. É. estou afirmando que Marx não entedia nada, por sua oclusão metafísica, de lógica elementar. Lênin até que se deu conta disso, quando tentou implantar a NEP, mas foi uma tentativa totalitária, subordinada à sua visão de construção de sociedade comunista. Depois veio a economia planificada do comunismo, a de Stalin e Mao, a de Castro - recordem, Guevara, um idealista frio e assassino, foi designado para o Ministério da Economia de Cuba. Veio a fome, o genocídio, os gulags, a Revolução Cultural, Pol Pot.Bem, chega. Lula, José Dirceu, Paul Singer, Dilma Roussef e os neocomunistas do FSM que os seguem que fiquem com isto tudo, que fiquem com seu estatismo ou socialismo de mercado. Eu prefiro o estado democrático de direito, com economia de mercado desregulamentada ao máximo. E estou convicto de que este tal Fórum é, passados dez anos de sua invenção, mais uma etapa da metástase do tumor sócio-econômico e cultural urdido no século XIX para desmontar a civilização. É o que pretendiam Marx e Engels com seu Manifesto Comunista.

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