"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

A Oração pelos Judeus e Bento XVI again

Escrevi artigo (ver no blog) sobre a mudança e a reintrodução, feita pelo papa Bento XVI, no Missal Romano da Sexta-feira Santa, da Oração pelos Judeus. Meu texto foi breve e simples. Nada que nele aparece, no entanto, pode ser apropriado por interpretações rápidas. O ponto de vista que defendi, com respeito à alteração e reintrodução da oração aludida, era direto: eu a considerei intempestiva e não congruente com as declarações, constituições e decretos do Concílio Vaticano II. Não pretendi (seria de uma tolice infantil se assim o fizesse) ensinar missa ao padre ou direito ao juiz. Apenas marquei posição sobre tema que me parece incontroverso, do ponto de vista judaico: houve sim retrocesso inequívoco na decisão papal materializada na nova versão da Oração pelos Judeus, que pede não apenas pela sua salvação, mas também para que aceitem Cristo. Não detectei, em meu artigo, antissemitimo na prece. Meu ponto foi outro e tratou de registrar o legítimo protesto de lideranças rabínicas italianas (mas não só delas, pois a reprovação, por parte de autoridades do e em judaísmo foi ampla) . Mesmo assim, despertei desapontamento em alguns católicos que leram meu texto. Um deles, o jornalista curitibano Márcio, de 31 anos, dedicou até espaço considerável em seu blog para corrigir erros que eu teria cometido em minha -segundo ele- imprópria, porque despreparada, incursão no assunto. Confronto, assim, a crítica que me foi lançada. Lembra-me o jornalista que a Oração pelos judeus "é parte da liturgia da Sexta-feira Santa há muito tempo (reforço eu aqui, desde o século XVI) e não foi abolida nem pelo Concílio Vaticano II, nem pela reforma litúrgica de 1969. O que aconteceu foi uma mudança nas palavras da oração". O jornalista está correto, mas o registro em nada altera aquilo que escrevi. Em meu texto não se encontra nem remota alusão à abolição da oração, em qualquer tempo. Encontra-se sim a referência à sua mudança e reintrodução (o leitor mais cuidadoso fará a inferência necessária, da oração alterada e, assim, reintroduzida, no caso, com nova alteração). Márcio prossegue: "Até 1959, rezava-se pelos 'pérfidos' judeus. Vocês sabem que, em português, 'pérfido' tem uma conotação negativa, assim como em outras línguas modernas. Mas em 1959 rezava-se apenas em latim, então é necessário que se busque o significado latino da expressão: E, em latim, 'pérfido' tem o significado principal de sem fé - o que, devemos reconhecer, corresponde à realidade, já que os judeus não reconhecem Cristo como o Messias. Mas em 1959. João XXIII mudou a oração e retirou o adjetivo. Isso quer dizer que se o missal tridentino usado atualmente é o de 1962, ele já não traz a expressão . Ou seja, um dos motivos de gritaria simplesmente não existe" (segue o trecho abolido por João XIII). Pois mal. Não fiz gritaria alguma. Se Márcio teve a intenção de me tirar das trevas da ignorância, o fez , a uma, como apedeuta em seu próprio autoproclamado domínio de excelência e, a duas, como doutrinador medieval. Primeira razão: perfidu, em latim, é uma contração de per fides. Per (o que persiste/permanece) e fides, fé (na fé). Ora, perfidu significa "aquele que permanece na fé" e não aquele que, como Márcio afirma, "não tem fé". Márcio não sabe patavinas de latim e se mete de pato a ganso. É de se perguntar, de qualquer forma, qual o motivo da retirada do adjetivo "perfidu" da oração, posto que, nela, nada, senso estrito, há de ofensivo aos judeus? Dois motivos saltam aos olhos: (a) "perfidu" também significa, em latim, aquele que mente a fé jurada, que é infiel, e, ainda, falso e traidor. É a multivocidade própria dos adjetivos, determinada pelo uso das palavras e não somente por uma imóvel contemplação lexical. Márcio ainda tem tempo: seria bom que estudasse Frege, Russel, Wittgenstein, Austin, Quine, Strawson, Grice, Searle, Kripke, Fodor, (fico em alguns graúdos), para maiores detalhes sobre como a linguagem (qualquer uma) funciona; (b) João XXIII e seus consultores, teólogos, linguistas e filósofos atentos, perceberam, para o bem, que o termo "perfidu", multívoco, também já estava contaminado por degenerações de outros idiomas vernaculares, nos quais as "conotações" negativas suprimiram quaisquer resíduos das positivas. Em português, por exemplo, pérfido é tudo de ruim. Veja a situação: o fiel ia à igreja e lá pelas tantas ouvia (e repetia) o padre dizer " pérfidos judeus". Na cabeça do não ilustrado - e a grande maioria dos crentes católicos é não ilustrada, ao contrário de Márcio- ficava aquela imagem do judeu "coisa ruim". Em boa hora João XXIII terminou com isso. Segunda razão: Márcio concluiu que os judeus são realmente pérfidos ( no sentido de seu latim), ao contrário de João XXIII, Paulo VI, João Paulo II ( o primeiro viveu muito pouco), mas de acordo com Bento XVI, porque "não aceitam Cristo como o Messias". É verdade, a fé dos judeus é diferente da fé dos cristãos e dos cristãos-católicos. E as práticas também. Enquanto, para o catolicismo, os judeus foram pérfidos durante mais de 1700 anos, para o judaísmo os cristãos são goim, ou seja, gentios - no sentido do latim "gentile", ou seja, que, pertencem ao povo, qualquer povo, não judeu. E não há, na tradição judaica - e aqui me refiro não apenas ao cânone, a Lei, os Profetas, os Escritos, o Talmud (coligido até o século VI), mais os teólogos e os chachamim -sábios-, qualquer referência pejorativa quanto aos goim. Encontra-se, em algumas guemarot - comentários talmúdicos - referências aosnotzrim (os nazarenos, ou seja, os cristãos que são teologicamente proscritivas). Todos os goim, no entanto, são merecedores de salvação (desafio Márcio ou qualquer crente católico a demonstrar o contrário). No judaísmo, no há perfídia, no sentidos estrito e lato, com respeito aos goim. Os católicos, por outro lado, consideram que apenas aqueles que aceitam Cristo como Messias serão salvos. A Oração pelos Judeus explicitamente diz isso. Para os católicos, decorre daí, que, só pelo fato de ser judeu ( entre outros pérfidos, em sentido estrito), o/a vivente não será salvo/a. Deixo para Márcio o trabalho de cotejar os conceitos teológicos de salvação do judaísmo e do catolicismo. Demanda estudo, mas adianto que são muito, mas muito diferentes. Também a idéia do Messias é diferente. O cristianismo, no dogma, é trinitarista. O judaísmo, em seu pilar de sustentação, é unicista, não tolera (no sentido conceitual de tolerar) a noção de que D-s tenha se feito homem. O Messias, que os judeus esperam, será um homem, não um deus feito homem. Mas não vejo isto como problema. Cada qual com sua religião. Registro (como já o fiz no outro artigo) que a Igreja, sem abandonar sua dogmática, nem sua apololética (propaganda evangelizadora), nem seu proselitismo milenar, pode ( e na minha opinião, seria mais aconselhável) adotar a visão de Paulo VI, na reforma dos livros litúrgicos promulgada em 1969, coerente com o espírito conciliar do Vaticano II, com respeito aos judeus. Retomo a Oração pelos judeus, verbis, na versão paulossestista e pós-concliar: Rezemos pelos judeus, a quem Deus falou em primeiro lugar, para que progridam no amor de seu nome e na fidelidade à sua aliança Na prédiga não há apelo ao reconhecimento de Cristo, à salvação no catolicismo, ou para que chegue Israel ao conhecimento da verdade e entre na plenitude da Igreja. Todas essas frases estão contidas na Oremus de Bento XVI, modificada e reintroduzida no Missal Romano, não esqueçamos, em 2007. Não quer dizer - é de uma obviedade pedestre isso, mas é necessário enfatizar- que João XXIII ou Paulo VI abandonaram suas convições basilares sobre a salvação na Igreja. Eles apenas fizeram um movimento apropriado ao seu tempo, ao nosso tempo, no sentido da Igreja ser mais tolerante e respeitosa com respeito a outras religiões e, em especial, com relação aos judeus que, João Paulo II - que também preservou essa trilha- chamou de "nossos irmãos mais velhos". O apressado jornalista Márcio também me acusa de ter cometido um trivial equívoco conceitual quando me referi ao antissemitismo que estava (e estava mesmo) plasmado naOremus pré-Vaticano II e que foi banido definitivamente por Paulo VI, repito, que seguiu as diretrizes do Concílio, quando promulgou, em 1969, a prece remodelada. Diz Márcio: "antissemitismo é uma discriminação de raça, e não de religião. Mas de qualquer maneira, como essas duas orações - eu aqui, a pré-concliar, de 1959 e a residual, que falava ainda de cegueira dos judeus, já sem os "pérfidos", que vigorou até 1969 - já estão fora dos livros, não precisamos discutir mais sobre elas". Não pisei na bola com respeito ao antissemismo. Ao contrário, foi o jornalista Márcio, de sua douta posição, que caracterizou o preconceito como sendo apenas de raça. Errado. O antissemitismo é o ódio aos judeus, não somente o ódio racial aos judeus. Ele pode estar na Igreja, como esteve desde seus pais fundadores. Lembro de João Crisóstomo, patriarca de Constantinopla ( 349-407) para quem os judeus eram "os piores dos homens, invejosos, repulsivos, pérfidos assassinos de Cristo, eles adoram o diabo, sua religião é a doença. .. Os judeus os odiosos assassinos de Cristo e por terem assassinado deus, não há expiação, nem indulgência, nem perdão. Os cristãos não devem jamais abdicar da vingança, os judeus devem viver em servidão para sempre. É imperativo que todos os cristãos odeiem os judeus ". Cito ainda o papa Gregório de Nicéia do século IV, mestre de Jerônimo, o autor da primeira versão das escrituras do hebraico para o latim: "Difamadores do senhor, assassinos de profetas, adversários de deus, odeiam a deus, desrepeitam a lei, estão distantes da graça, os inimigos da fé de nossos pais, os advogados do diabo", e bem por aí vai até chegar a "assembléia de demônios". É pouco? Pois o jornalista Márcio, que deve se inteirar melhor sobre o antissemitismo não racial, aquele praticado e apregoado pela Igreja até o final do século XIX, vai se espantar com acusações como esta: "os judeus, maus e cruéis como cães, agarraram brutalmente a criança, a jogaram por terra e pisotearam. A desnudaram rapidamente e quando a puseram nua, os judeus porcos, os cães fétidos, lhe fizeram vários ferimentos, com punhais e cutelos". Trata-se de um poema e evoca o caso da acusação de assassinato ritual e profanação de óstias, lançada contra a judiaria medieval pelos cristãos. O caso citado é o de Santa Gudula, de 1370, na Holanda. Judeus envenenadores de poços, causadores da peste negra, criptojudeus depois da Inquisição, enfim, seria necessário dezenas de livros só para falar do antissemitismo cristão, não racial, jornalista Márcio. Esse é o antissemitismo, regular e vulgo, cultural e beligerante, que foi apenas se aplacando com a modernidade que adveio, a partir do século XVIII. Sugiro algumas leituras: pesquise os nomes dos livros, porque somente citarei autores: Leon Poliakov, Allan Gould, Barbara Tuchman, Rosemary Reuther, Malcom Hay, Shlomo Eidelberg, Charles Lamb, Jacob Marcus e James Parkes, para não citar Hanah Arendt. A grande pensadora dedicou-se mais à investigação do antissemitismo racial nazista, porque, na sua época (primeira metade do século XX), o antissemitismo cristão tradicional, não-racista, o "preconceito" clerical e cultural, como o chama o jornalista Márcio, numa sociedade européia secularizada, já não fazia os joelhos dos crentes se dobrarem, embora muitas inflexões antissemitas, inclusive litúrgicas, como o Missal Romano, tivessem permanecido as mesmas. Mas o jornalista, em sua crítica ao meu texto, não se exaspera e passa a me dar aulas sobre a biografia de Bento XVI. Eu afirmei, é fato, que o atual papa pertenceu à juventude hitlerista. Sobre isso, Márcio diz o seguinte: "Enquanto Ratzinger for vivo, sempre haverá alguém para retornar essa babaquice de Juventude Hitlerista. Precisamos lembrar que a filiação à Hitlerjugend era obrigatória na época em que Ratzinger era adolescente e que sem ela os meninos tinham problemas?". Pobre Ratzinguer, ele era um menino e não queria ter problemas. Não peraí, sinal vermelho. Não sou babaca não, jornalista Márcio. E não preciso ser lembrado do conto de fadas que você inventou para justificar a razão pela qual Bento XVI filiou-se à Juventude Hitlerista. A filiação não era obrigatória não. Era voluntária, poderia ser mais conveniente, poderia até não ser motivada por adesão ao antissemitismo, poderia ter sido mesmo um movimento juvenil não pensado, do tipo "ah, minha turminha vai, eu também vou". Mas não era filiação forçada. E mais, digamos que tivesse sido impostiva, ad argumentandum. Inúmeros jovens não se alistaram. E ninguém morreu por causa disso. Outros muitos jovens alemães até se insurgiram contra o regime hitlerista e morreram por causa disto. Qual foi a opção do "menino" Razinger? Filiar-se à Juventude Hitlerista. Não havia lei que o compelisse à filiação. Mas - e de novo para argumentar - se houvesse a tal lei? É moralmente mandatório seguir uma lei imoral? Claro que não. Deve-se insurgir contra ela. E Ratzinger não fez isso. Ele alistou-se naquela Juventude e ponto final. Sem escusas. Depois ele refletiu, concluiu que cometeu um erro, que não era antissemita? Tudo isto eu aceito. O que não aceito é que me chamem de babaca por ter apontado para um fato biográfico inquestionável e que não pode ser transviado por ideologias adesistas. Passado é passado, o de Ratzinger, o do jornalista Márcio e o meu. No mais, como não fui desmentido em nada pelo jornalista, mantenho tudo o que escrevi e remeto, a quem se interessar, para a leitura de meu artigo, que tem o título Bento XVI e a Oração pelos Judeus. Concluí que a decisão papal é intempestiva e provocou um abalo nas boas relações que a Igreja, depois do Concílio Vaticano II, passou a manter com o judaísmo.


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