"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

A Turquia, Israel e os palestinos

O primeiro-ministro turco Recep Tayyib Erdogan é um islamopopulista. Ele está no poder desde 2003 e, de lá para cá, suas políticas, interna e externa, têm sido marcadas por um forte apelo para que a Turquia retorne às suas raízes islâmicas, inclusive com a adoção da sharia. A Turquia, desde 1923, é uma república parlamentarista secular. O sultanato foi abolido em novembro de 1922 e a república, proclamada em seguida, teve como primeiro presidente Mustafa Kemal Pasha, também chamado Ataturk (o pai dos turcos). Kemal, um general, introduziu reformas profundas na Turquia, com o objetivo de modernizar o país. Entre elas, foi implementada a secularização do estado. O caráter secular da república é constitucional e não pode ser alterado. Cabe, inclusive, às forças armadas, protegê-lo.

Erdogan, no entanto, vem tentado islamizar o quanto pode a política turca , por meio de seu partido, o AKP ( Adalet ve Kalkinma, Justiça e Desenvolvimento, em português). Desde que foi prefeito de Istambul, Erdogan enfrenta problemas judiciais devido a declarações sobre o retorno do califado e sobre o papel que o mundo islâmico espera que a Turquia desempenhe. As forças armadas o vêem como populista islamista, que pode colocar em risco as relações estratégicas que a Turquia mantém com Israel. Mas Erdogan mantém-se dentro dos limites constitucionais, apesar das declarações inflamadas que fazem referência à sharia (a lei islâmica) e de tentativas de nomear juízes identificados com seu partido para as cortes mais altas da Turquia.

A Turquia faz parte da OTAN e é um país de importância estratégica central, devido à sua posição geográfica (fronteira com Irã ao leste, com Iraque e Síria a sudeste, Mediterrâneo ao sul, Grécia e Mar Egeu a oeste). Com os gregos sustentou uma guerra devido à ocupação da Região de Ismir, depois de encerrada a I Guerra Mundial. Os turcos retomaram a região, cuja capital é Esmirna, mas mantêm uma posição de atrito com os gregos até hoje. Nos anos de 61 e 62, os Estados Unidos instalaram bases balísticas móveis, com mísseis de médio alcance, em Ismir. Os turcos controlaram as bases, mas os EUA mantiveram sob seu controle as ogivas nucleares que haviam transportado para a região. Em 1962, a URSS reagiu e deslocou mísses balísticos nucleares para Cuba. O episódio quase deflagrou um conflito entre EUA e URSS, em outubro daquele ano. Os soviéticos aceitaram retirar seus mísseis de Cuba, mas exigiram a retirada das ogivas nucleares americanas de Ismir. Kennedy topou e, com isso encerrou-se o episódio de maior tensão da Guerra Fria.

A recente ofensiva israelense contra o Hamas despertou a inflamada solidariedade islâmica em Erdogan. Durante os ataques israelenses, o primeiro-ministro turco declarou que Israel deveria ser expulso das Nações Unidas até que interrompense sua "agressão". As relações entre Israel e Turquia são estáveis e mesmo cooperativas, no campo comercial e estratégico, por exemplo, desde os anos 50 do século passado. No entanto, o quadro tende a mudar. Erdogan, com sua ideologia islamista, quer exercer um papel destacado na resolução dos conflitos do Oriente Médio. Já tentou mediar um acordo de paz entre israelenses e sírios e, na recente crise com os palestinos, procurou, sem sucesso, intervir nas negociações de um cessar-fogo entre Israel e o Hamas.

Amos Gilad, chefe do gabinete de segurança política do Ministério da Defesa israelense, estava no Cairo, no final da primeira quinzena de janeiro, para negociar com os egípcios um eventual cessar-fogo com o Hamas. Por determinação de Erdogan, Ahmet Davotoglu, o principal conselheiro para relações exteriores do primeiro-ministro turco, tentou encontrar-se com Gilad. Davotoglu havia, em 2008, intermediado conversações não-oficiais entre israelenses e sírios em Istambul. Não houve, entretanto, o encontro no Cairo, por decisão do governo de Jerusalém, pois os turcos não tinham qualquer papel a cumprir nas tratativas que visavam obter uma trégua com o Hamas. A intervenção turca foi considerada, nos bastidores diplomáticos, por egípcios e israelenses, oportunista e sem consequências.

No dia 29, Gilad voltou ao Cairo, para conversar sobre uma trégua duradoura com o Hamas, que asseguresse o cumprimento de duas exigências: a libertação de Gilad Shalit, o soldado israelense sequestrado pela organização terrorista há mais de dois anos e meio e o bloqueio eficaz do contrabando de armas para a Faixa de Gaza, feito principalmente, pelo Irã. Enquanto isso, Davotoglu entrevistava-se com o líder do Hamas, Khaled Meshal, exilado na Síria. Os turcos desagradavam egípcios e israelenses, que tentavam avançar nas negociações.

Erdogan queria porque queria mediar uma trégua. Seria um trunfo para mostrar a todos que a Turquia tornava-se influente na condução dos assuntos do mundo muçulmano. Repelido nas suas tentativas anteriores, ele orientou seu embaixador no Cairo para arranjar um encontro entre Davotoglu e Gilad. Não teve sucesso mais uma vez e perdeu a paciência. Sentindo-se alijado por todas as partes, menos pelo Hamas, que conversa com seu representante e com os egípcios ao mesmo tempo, Erdogan chegou a Davos, onde se realiza o Fórum Econômico Mundial, irritado. Convidado pelos organizadores para participar de um debate sobre Gaza, com Shimon Perez, o primeiro-ministro turco ouviu o presidente israelsense, num tom de voz agudo, defender a ofensiva de seu país contra o Hamas. Erdogan havia criticado Israel antes e, depois da fala de Perez, pediu mais um minuto para treplicar. Mesmo advertido que a tréplica não era prevista, pois todos já haviam exposto suas posições, Erdogan não se conteve e acusou Israel de estar matando crianças. "Eles estão morrendo". Ao final da fala, afirmou que não voltaria mais a Davos e foi embora.

Na sua volta a Ancara, Erdogan foi recebido como herói, por centenas de assulados manifestantes anti-israelenses. O palco populista islâmico estava armado e Erdogan, de microfone em punho, exclamou: "não sou contra o povo de Israel, nem contra os judeus. Sou contra a administração (o governo) israelense". Papo furado. Depois de tentar o meter bedelho, por tantas vezes, onde não foi chamado e, por isso, repelido por todos que de fato decidem as coisas com respeito ao conflito entre Israel e os terroristas hamasianos (lembro, além dos israelenses, os americanos e os egípcios), restou a Erdogan um palanque doméstico islamopopulista. Azar da Turquia.

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