"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

Arcebispo de Porto Alegre é negacionista

Surpreeendem-se apenas aqueles que não conhecem. As declarações recentes do Arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings, sobre o Holocausto, à Revista Press, segundo as quais (a) mais católicos do que judeus morreram vitimados pelos nazistas e (b) tal fato não é devidamente destacado porque os judeus possuem a propaganda, são recidivas. Em 2003, esse prelado havia escrito o mesmo, no sitewww.portaldocatolico.com.br, com mais riquezas de detalhes: segundo a autoridade da Igreja -um arcebispo é uma autoridade eclesiática, até prova em contrário- afirmou que apenas um milhão de judeus haviam sido vitimados no Holocausto, que o número de 6 milhões era "ideológico" e que o nazismo havia tirado a vida de 22 milhões de pessoas, a maioria de católicos. "E se fossem 6 milhões?", perguntava então o Arcebispo de Porto Alegre. "O que são 6 dentro de 22 milhões?" Há outras indecências no artigo deste prelado judeófobo sobre o Holocausto e os judeus. Eu as registrei no livro que organizei -Ensaios sobre o Antissemismo contemporâneo, Editora Sulina, Porto Alegre, 2004-, mas não as reproduzirei aqui. Passo para outro ponto.

Soube das declarações de Dom Dadeus por Zero Hora, edição de quinta-feira, 26 de março, mais especificamente por uma nota da jornalista Rosane Oliveira. Não gostei da nota, porque a jornalista afirmava que as declarações do arcebispo tinham a marca da polêmica. Questionei a jornalista, por e-mail, sobre a tal polêmica que, obviamente, só existe para quem é antissemita, uma vez que o Holocausto, como fato histórico, é indisputável. O termo polêmica foi empregado de modo inaproporiado. A jornalista respondeu-me dizendo que fui ofensivo no meu e-mail e que estava se referindo à repercussão das declarações do prelado. Ato contínuo, telefonei a ela e disse que não a tinha por antissemita e que minha manifestação, com respeito ao que ela escreveu, era crítica. Afinal, repeti que polêmica há sobre fatos controversos e o Holocausto é incontroverso. Ou ainda, sobre fatos incontroversos que despertam opiniões controversas. Não é o caso do que afirmou Dom Dadeus. Ele é um antissemita mentiroso contumaz, que nega o Holocausto. Como Richard Williamson, o bispo inglês reabilitado pelo Papa Bento XVI recentemente e, devido a suas declarações iguais às de Dom Dadeus, forçado a pedir desculpas e ainda expulso da Argentina.

O caso de Dadeus é mais grave, porque Williamson não possuia uma diocese particular. Dadeus, um catojudeófobo típico, fala na condição de Arcebispo de Porto Alegre, de forma reincidente, sem que se saiba de qualquer admoestação do Vaticano. Cara-de-pau, ele aparece novamente na edição de sábado, 27 de março, sem fazer ressalva alguma sobre suas declarações, sem mostrar arrependimento; sem, é claro, admitir que aquilo que disse é uma farsa ideológica, montada por neonazistas e negacionistas para assassinar a memória do Holocausto - assassinar a memória é uma expressão cunhada pelo historiador Pierre Vidal-Naquet.

Na mesma edição de Zero Hora, lê-se declarações de "líderes judeus" sobre a manifestação de Dadeus. São patéticas. Não citarei os nomes desses "líderes", mas registro: são cheias-de-dedos e nenhum deles chama Dadeus de antissemita. Um deles - o "líder" religioso da Sibra- ainda diz que Dadeus é seu "colega". Colega em quê? Já o termo expressa, no caso, uma disfunção de interpretação. Judeus e católicos podem dialogar, mas não são colegas. Colegas os católicos são de católicos, judeus de judeus, muçulmanos de muçulmanos e por aí vai. Mais ainda: se Dadeus é um antissemita, como de fato é e faz questão de comprovar - enfatizo, desde 2003-, aparece agora, depois da comprovação, uma declaração de um "líder" judeu que o chama de colega? Hoje! Mas assim não dá. O camarada se considerar líder de uma organização judaica, vá lá. Mas, nessa condição, chamar Dadeus de colega, porque toma cafezinho com o arcebispo negacionista, creio naqueles diálogos interreligiosos, é outra coisa. Flerta com um inimigo conhecido e desavergonhado. Só em havendo respeito recíproco é que se pode pensar em diálogo - não em coleguismo, isso é uma firula politicamente correta- seja interreligioso ou de qualquer outro tipo. Além do mais, Dadeus não merece respeito algum. A ele convém repúdio e condenação veementes, porque o catojudeófobo fala dos judeus de forma ofensiva. Que se dane se é bispo. Como os aiatollas iranianos, ele nega o Holocausto. Envergonha, assim, os católicos. Cabe às lideranças judaicas brasileiras não se contentarem com declarações fajutas de protesto, mas enviar uma carta ao Vaticano exigindo que a Santa Sé se pronuncie sobre mais esse episódio de antissemitismo e que esse Dadeus seja obrigado a se retratar, em respeito a memória dos milhões de mortos judeus no Holocausto. Mulheres, crianças, homens, velhos e velhas, assassinados porque eram judeus.

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