"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

Ban Ki-moon e os pilantras

Leio, nos sites Terra e UOL (escrevo no dia 15 de janeiro) sobre a estada de Ban Ki-moon em Israel. O secretário-geral da ONU entrevistou-se com a ministra das relações exteriores Tzipi Livni e com o ministro da defesa, Ehud Barak. De acordo com os dois sites, Israel pediu desculpas a Ban Ki-moon por ter alvejado um caminhão da ONU, há alguns dias. O site UOL chama KI-moon de chefe da ONU, no título da matéria. No texto que se segue ao título, entretanto, não há nada sobre pedido de desculpas. Ehud Barak lamentou o incidente e garantiu que Israel tomou providências para evitar que novos casos como aquele ocorressem. Não pediu desculpas a ninguém. Lamentou, como era de se esperar, que lamentasse. A ministra Livni, por sua vez, disse a Ki-moon que Israel deseja a paz, mas não com terroristas que atacam seus cidadãos. Ponto final. E Ki-moon foi embora, mais calmo.

Bem, quanto à notícia: Ki-moon é chamado de chefe da ONU pelo siteUOL. Mas o que é isto? Virou gozação? Ban Ki-moon é o secretário-geral e não chefe da ONU. A ONU não tem chefe, cara pálida. O secretário-geral a administra e a representa, mas não é instância nem executiva nem deliberativa. Para isto existem a Assembléia Geral e o Conselho de Segurança. Fazer jornalismo desse modo equivale a fazer política como o Hamas faz, ou seja, na base do terror. Inocência não pode ser alegada. Jornalistas devem ter cuidado com as palavras, ensinam mesmo os cursinhos de comunicação mais chinfrins (e os há em grande número). Coisinha básica, porque senão o jornalista é lido como tapado ou pilantra. O pessoal que escreve na Carta Capital e naCaros Amigos, por exemplo, é tapado-pilantra. Quanto ao noticiário do Terra, a editorialização é de uma transparência de fazer inveja às águas de Fernando de Noronha. Ponderação, equilíbrio, discernimento, objetividade, todos esses valores jornalísticos foram abandonados em nome do maniqueísmo de almanaque. Os palestinos são coitadinhos, Israel é uma potência militar e, pronto, está fixado o axioma. A partir dele, até o secretário-geral da ONU torna-se uma figura importante.

Ban Ki-moon não tem importância alguma. Pior que isso, ele sequer resguarda o caráter do cargo, que deve ter como modelo os cargos de chefe de estado das monarquias européias de hoje. Se fosse o similar da Rainha Beatrix, da Holanda, estava ótimo. Mas é o contrário e, por isso, expõe-se ao escárnio. Foi ao Egito e disse que queria entrar em Gaza. O presidente Mubarak não deixou. Vai entrar na casa da Mãe Joana, mas em Gaza não entra. E ele foi para Israel, para dizer que as mortes na Faixa eram intoleráveis. E no Sudão não são, basbaque? Ban Ki-moon tem um QI menor do que o Ban Ban, o filho do Barney, e a mesma moralidade viscosa do Emir Sader.

A ONU é uma ongona que abriga tiranias, ditaduras, regimes genocidas e governos fundamentalistas. Se fosse para ser levada a sério, já teria se autodissolvido, porque a metade, no mínimo, dos seus países membros rasgam diariamente a Carta das Nações Unidas, de 1945. Não é de hoje que a entidade secretariada pelo senhor Ban Ki-moon serve de palanque para figurinhas dóceis. Ruanda está representada na ONU. O Sudão, a Somália, o Zimbawe e Serra Leoa, países subssarianos onde imperam a paz e certas garantias individuais básicas – como o direito à vida – estão lá. Do ponto visto social, não há desagregação nesses paises, nem crise humanitária. Há putrefação completa.

Mais para o Norte da África, temos os países árabes do Mediterrâneo, todos democráticos. A Leste, vem o Oriente Médio, com as democráticas Jordânia, Síria, Arábia Saudita (lá, se o sujeito não for wahabi, se estrepa). Os sauditas são conhecidos por respeitar aquilo que para a ONU de Ki-moon é essencial: o combate à criminalidade: ritos sumários, enforcamentos, decepamento de mãos (isto é pena leve). Em termos sociais, é muito desenvolvida: mulheres politicamente corretas –todas não podem abrir o bico- poligamia, ausência de homossessualismo. É um país recatado e pacífico.

Desloquemo-nos um pouco mais, para o Sudeste asiático: Coréia do Norte, Vietnã, Birmânia, Sri Lanka, são exemplos de prosperidade, liberdade e respeito aos direitos humanos. A China, que é membro permanente do Conselho de Segurança, é um continente de fraternidade comunista. Houve lá dois genocídios, mas a ONU da época não viu. Na China as liberdades individuais já estão chegando, trazidas pelos ventos de uma economia de mercado. Hoje, ao menos, pode-se escrever algo (de bom, é claro) sobre marxismo, sem ser condenado a trabalhos forçados na Manchúria. Na época da Revolução Cultural de Mao, até falar em Marx era proibido. Quem ousasse era re-educado.

Esqueci de alguma nação progressista? Do Irã, é claro! Todos os dias, por lá, se reza voltado para Meca e se respira o ar da liberdade dasharia. Uma das conseqüências: naquele país, se alguém quiser deixar de ser muçulmano, é condenado à morte. Nem vou falar de dissidência política ou direitos da mulher. Homossexuais? Tente ser um lá em Teerã. Consultem a Carta da ONU e vejam se esses detalhes teocráticos são compatíveis com ela. E, depois disso, tentem lembrar de quando o senhor Ban Ki-moon viajou para Teerã para protestar pelo não-cumprimento da Carta que ele deveria preservar.

Eu não lembro. Nem de quando ele viajou a Moscou para se insurgir contra a recente invasão da Geórgia - e a crise humanitária que adveio dela. Sobre a Chechênia, nem falo. Quando o exército russo se move, matar é legítimo. Ou não é? E não foi assim, quando a URSS invadiu a Hungria e depois a Checoeslováquia? Não havia ONU na época? Não houve desproporção nem crise humanitária? Tudo aquilo era tolerável?

Na América Latina, durante os anos 70, vivemos sob ditaduras. Especialmente na Argentina e no Chile, foram sanguinárias. Mas jamais a ONU censurou esses seus estados membros, que tambémnão deixaram de ser membros da ONU porque rasgavam, diariamente, a Carta de 1945. E Cuba? Pelo que sei, também integra a ONU. É o nosso brinco democrático-castrista, há 50 anos.

Vamos combinar: não dá para levar a sério. Mas a mídia mundial pára para cobrir a estada deste apalermado secretário-geral das Nações Unidas a Israel. Ki-Moon poderia ter se inspirado no Ban Ban do Barney e ficado na dele. Mas quis ser enquadrado pelos governos do Cairo e Jerusalem. Chegou alterado, falando em crise humanitária intolerável, pensando que alguém iria dar bola, e saiu com o rabo entre as pernas, moderando o tom, dizendo que Israel tem, de fato e de direito, de cuidar de sua defesa.

Foi o que ele disse, ao final de sua visita a Jerusalém. Mas o Jornal Nacional da Rede Globo, que passa antes da Flora e da Donatela, não registrará isso. Também os sites do Terra e do UOL calar-se-ão. Mas eu o vi dizendo e ouvi o que ele disse, na BBC. Ninguém me contou. Por isso, esses jornalistas da esquerda de boteco, pilantras metidos a besta, que sequer leram o Manifesto Comunista –um panfleto feito para quem não pode ler textos mais difíceis- não me enrolam. A mim não.

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