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"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

Bento XVI e a Oração pelos Judeus

Bento XVI mudou e reintroduziu, na liturgia da Sexta-feira Santa, aOração pelos Judeus (Oremus et pro Iudaeis), que se rezava antes do Concílio Vaticano II (1962-65). Em 7 de julho de 2007, a oração, que já havia sido modificada em 1969 por Paulo VI, foi colocada, por Bento XVI, no contexto da recuperação do Missal Romano. Cito o trecho do Missal agora autorizado, que retoma a Oração pelos Judeus:

Rezemos pelos judeus. Que o Deus nosso senhor ilumine seus corações para que reconheçam Jesus Cristo, Salvador de todos os homens. Deus onipotente e eterno, vós que quereis que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade, concedei que, entrando a plenitude dos povos em vossa igreja, todo Israel seja salvo.

Não há antissemistismo aqui. Bento XVI não cometeu esse crime, deixemos bem claro. Antes do Concílio Vaticano II, sim constava do Missal Romano para a Sexta-feira Santa, uma pregação antissemita. Cito:

[Deus] elimine a cegueira deste povo para que, reconhecida a verdade de sua luz, que é o Cristo, saiam das trevas.

Essa já não consta. Mesmo assim a recuperação da Oração pelos Judeus, em sua nova versão, causou abalo nas relações da Igreja com personalidades importantes do judaísmo. Após o anúncio da reintrodução do Missal Romano, as relações ficaram estremecidas e o diálogo interreligioso foi suspenso, sob protestos do rabino de Veneza, Elia Enrico Richeti. O rabino, em 13 de janeiro de 2009, afirmou que, com Bento XVI, "a Igreja está cancelando os últimos 50 anos de história do diálogo entre judeus e católicos".

Richeti fez a acusação em carta enviada à revista Papoli, dos jesuítas italianos. Nela, o rabino informa os motivos pelos quais os judeus não participariam da Jornada sobre o Hebraísmo, iniciada pela Igreja da Itália no último 17 de janeiro de 2009.

Richeti considerou insuficientes as justificativas do Vaticano para reintroduzir o Missal Romano com a Oração pelos Judeus. O rabino Giusepe Laras, presidente da Assembléia Rabínica Italiana apoiou a posição de Richeti. Laras disse não haver acordo satisfatório entre judeus e católicos sobre a prece que os católicos rezam na Sexta-feira Santa, segundo o ritual pré-Vaticano II.

A reintrodução da prece, ainda que mitigada pela ausência de adjetivos - anteriormente ao Vaticano II, os judeus eram chamados de pérfidos,na mesma Oração-, não poderia deixar de ser preocupante aos olhos dos rabinos. Com João XXIII e Paulo VI, esse resíduo ideológico do Missal Romano, - que nada tem a ver com o dogma cristão – foi excluído da liturgia da Igreja. É de se questionar: quais foram as razões do Papa Bento XVI - que pertenceu à Juventude Hitlerista- para tê-lo reintroduzido? A decisão de Bento XVI contraria a orientação conciliar do Vaticano II, segundo a qual a Igreja e todos os católicos devem lutar pela liberdade religiosa e promovê-la, pois a liberdade de religião expressa a liberdade de consciência. Nessa perspectiva, pode-se pensar num diálogo interreligioso respeitoso. Não sou eu quem diz. Está numa das declarações conciliares - a Dignitatis Humanae- assinada pelo Papa Paulo VI, antes do encerramento do Concílio, em dezembro de 1965.

Bento XVI não é papa por acidente. É um erudito em teologia e filosofia cristã. Cai sobre ele, agora, uma dúvida que faz lembrar a todos sobre seu passado. É inevitável. Sua preocupação com os judeus é intempestiva. Não me aprofundo no tema doutrinário, mas constato que a pregação missionária da Igreja de hoje, natural, porque católica - não pode colidir, mais uma vez lembro, com o espírito de tolerância e convivência expressso nas declarações conciliares do Vaticano II; mesmo a missão evangelizadora deve levar em conta a liberdade de consciência das pessoas. Não há porque fazer retornar, a um Missal, uma prédiga tópica que pede pela salvação de Israel (sic). É preciso estar atento para o que ocorre hoje no mundo. Em artigo anterior (publicado no blog), chamei a atenção para o fato de que está sendo novamente chocado o ovo da serpente. Esse passo do Papa preocupa, porque se insere num contexto mais amplo, no qual Israel e os judeus voltam a se tornar alvo de especulações perniciosas, mistificação e ataque antissemitas.

Bento XVI não é antissemita, estou certo disto. Mas a recuperação daOração pelos Judeus desperta uma discussão que não aproxima judeus e católicos. Os rabinos italianos deixaram isto claro. Seria bom para todos que Bento XVI fizessse esforços diplomáticos no sentido de conseguir uma reaproximação com interlocutores judeus, sem enfatizar a profissão de fé que julga a fé dos outros. João XXIII certamente teria agido deste modo

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