"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

Evasivos e neutros na guerra. Zero Hora again

Intraga-me, em certos especialistas, a capacidade que têm de flanarem sobre assuntos agudos sem tomarem posições conceituais e explanatórias inequívocas. Intraga-me o fato de que, seja de um remoto lugar ou de nenhum lugar - refiro-me a um lugar teórico-analítico- que aparecem, aqui e acolá, agindo como vestais ou portadores de uma verdade originária, a qual poucos têm acesso. O resultado dessa postura é sempre o mesmo: abobrinha e encheção de linguiça. Cito, como contraponto, Robert Kurz, um teórico marxista que tomou posição, de seu lugar teoricamente transparente, sobre a Guerra de Gaza: Kurz (refiro seu artigo em outro texto, nesse blog), partindo de uma visão marxista, formulou uma compreensão sobre a guerra e concluiu: para um marxista, ficar do lado do Hamas é absurdo. Ele apresentou suas premissas -das quais discordo- mas foi coerente com elas, chegando à seguinte conclusão: a guerra contra o Hamas é justa e terminou.

Com esse tipo de teórico há uma interlocução produtiva. Cito outro, com quem debati temas supervenientes à guerra: meu amigo XYZ (não dou o nome, porque ele não deseja entrar na arena da discussão pública). Há ali argumentos, eu tentei refutá-los (a discussão está no blog) e, enfim, a vida dele e a minha continuam. Existem alguns mais, poucos, infelizmente, que não estão abaixo do nível do chão. Abaixo desse nível estão criaturas como o anarco-sindicalista pró-MilsosevitchNoam Chomsky, além de Saramago, Niemayer e Berzoini, o presidente do PT. São comunistas toscos (mesmo que alguns reluzam em seu ofício). Com esses antissemitas não há debate. Devo denunciá-los como caluniadores que são. Falam de uma enrugada esquerda que herdou seu antissemitismo da Igreja Medieval, apesar de se dizerem ateus. Engano-me? Não. É só ler o que declaram ou escrevem.

Volto aos ilustres da fala neutra. Leio em Zero Hora de sábado, 17/01, Caderno de Cultura, texto de duas páginas no qual são entrevistados o doutor em comunicação Jaques Wainberg, professor da PUCRS, e Paulo Vizentini, apresentado como professor de Relações Internacionais da UFRGS. Conheço ambos pessoalmente e por Vizentini, que é professor titular da UFRGS, coordenou o Instituto de Estudos Avançados da universidade e é doutor em história, tenho apreço pessoal. Com ele, montei e coordenei, em 2000, um seminário internacional sobre o neonazismo na UFRGS. Depois publicamos um livro com as conferências do seminário, hoje com a edição esgotada.

No sábado 17, dia em que a matéria de Zero Hora saiu, o governo de Israel declarou um cessar-fogo unilateral. Manteve tropas em posições que considera estratégicas de Gaza ( calma, isso não quer dizer que Israel vai re-ocupar a Faixa) e disse que aguarda o comportamento do Hamas a partir deste momento. Se continuarem com foquetes, Israel, segundo seus governantes, agirá novamente. O jornal de sábado desconhece o fato porque foi editado na sexta-feira. Já era jornal velho no sábado, mas isto é compreensível. Feio, no entanto, foi a edição de domingo, que nada traz sobre o cessar-fogo unilateral de Israel, enfatizo, anunciado no sábado. A matéria de domingo especula, quando já havia um fato. Sabemos a razão: esse miúdo jornal fecha a edição de domingo até a manhã de sábado. Não deu tempo para o ZH esperar pela decisão do gabinete israelense sobre o cessar-fogo. Por isso fizeram uma matéria futuropreterizada (veja, no blog, o que penso do futuro do pretérito no jornalismo). Puro chute, cheia de talveze coisas desse gênero, quando havia um fato. E ainda tem gente que compra esse jornal. Eu não compro. Leio na internet, para manter-me atualizado sobre assuntos futebolísticos e olhe lá.

Sobre o que é a matéria do Caderno de Cultura? O tratamento dado aos jornalistas e ao jornalismo pelas partes em conflito na Faixa de Gaza. A pauta pode agradar alguém, mas a mim, em particular, causou só curiosidade. Li e constatei: é uma discussão lateral, bem ao gosto do miúdo jornal que publica a matéria. Não enfrentar o tema central, que é a guerra, mas contorná-lo por meio de temática irrelevante. Relevante é a guerra. Falar sobre o problema dos jornalistas, nesse contexto, é o mesmo que falar sobre o problema dos médicos palestinos e israelenses nesse contexto. O problema existe, é claro: para os médicos, é salvar vidas. Mas no contexto, é parte secundária. O problema dos jornalistas existe, também é claro. Trata-se de fazer notícias sobre a guerra.

Alguém dirá: mas, sem os jornalistas ficamos sem saber o que ocorre na guerra. Certo. E a matéria de Zero Hora pretende tratar disso. Assim estão lá as opiniões dos especialistas em jornalismo e guerra. Diz Waiberg, também apresentado como analista político pelo jornal, que Israel está adminsitrando os jornalistas de forma inédita: ninguém entra na Faixa de Gaza e pronto. O método inova, com relação ao método "pool", inventado depois do que ocorreu no Vietnã -onde havia jornalista por tudo quanto era lado, sem controle, mostrando aos americanos e ao mundo o que acontecia por lá- . Waiberg não disse do modo como estou dizendo, mas referiu o Vietnã e falou que depois o negócio foi estudado, em profundidade, por especialistas. Porque, aos conflitos armados, sobrepõem-se "emoções de milhares de pessoas e isso se dá pelas imagens que estão nas nossas cabeças".

Wainberg lembra que à guerra propriamente dita estão associadas outras guerras: "a psicológica, a de informação, a de nervos" (ele deveria ser editado aqui, porque se é psicológica, é de nervos). Bem, depois do Vietnã e devido a todos esses fatores que Wainberg enumera, vieram os especialistas dos exércitos e inventaram a cobertura "pool", que significa o seguinte: "o exército seleciona um pequeno número de representantes da mídia para acompanhar certas operações militares, sob a vigilância e a tutela de um oficial de informação. O modelo mantém os jornalistas dentro de limites considerados aceitáveis".

Opa! Waiberg pisou na bola. Mas que turma de jornalistas mais boçal é esta! Cobrir uma guerra desse jeito não dá. Assim é melhor não cobrir. Isso equivale a entregar a redação da Revista Time ao controle dos assessores de imprensa do Obama. A partir de agora, os jornalistas da Time ficarão dentro de limites considerados aceitáveis para Obama. E a Time topa. Waiberg, menas, como diz o Lula.

Mas, que diabos, qual seria a alternativa dos jornalistas? O exército só deixa cobrir dentro dos limites aceitáveis. O que fazem os jornalistas? Eniviam um protesto à ONU. Quem sabe o Ban Ki-moon (da época) intervem e libera geral a guerra para nós. Ad argumentandum: Os EUA estão bombareando Bagdad (o exemplo de Waiberg concerne à Primeira Guerra do Golfo), a capital do Iraque está cheia de jornalistas ocidentais e começa a morrer um aqui, outro ali, mais um acolá, mais outro ali. Pergunto: vale a pena o risco para os EUA? Não. E para os jornalistas? Respondo: depende do jornalista. Para alguns vale. Para outros não vale.

O problema com a análise de Wainberg é que ele não atenta para certos fatos. Primeiro: Israel não inovou em nada e também não vai aplicar o modelo "pool" em Gaza, onde em cada cantinho tem um homem-bomba para explodir todo mundo. É diferente do Iraque.

Tem mais: os jornalistas poderiam entrar pelo Egito e não conseguem. Motivo: se entrarem, vai morrer repórter. A Suprema Corte de Israel liberou a entrada dos correspondentes credenciados em Gaza, com uma condição: todos são responsáveis por suas vidas. É, eu li a decisão da Suprema Corte, prolatada depois que a Associação de Jornalistas Estrangeiros entrou com um pedido para entrar na Faixa de Gaza a partir da fronteira israelense. O governo de Jerusalem não permitiu a entrada , até sábado dia 17/01, porque - e o governo israelense diz isso a todo instante- havia risco de morte iminente, pois a guerra se dá rua-a- rua, contra terroristas que não respeitam a vida de ninguém, inclusive a de jornalistas. A partir do dia 17/01, o exército passou a liberar a entrada de jornalistas na Faixa, em terreno onde não há risco iminente de morte.

Imaginem se um terrorista mata um repórter. Para provar que a culpa não foi de Israel seria uma missa. Depois não vão querer empilhar caixões para cima do governo israelense. O Hamas já faz isso, com mulheres e crianças. Só faltava a BBC e a CNN também fazerem, com seus jornalistas.

Então isso tem de ser considerado. Por um analista, digo. Aquele pessoal do exército lá de Israel considerou e não está inovando nada. Só está seguindo a lógica natural de evitar mais mortes ainda. Mortes que, sobretudo, causariam um grande e negativo impacto na mídia, porque seriam mortos da mídia. Paremos para pensar: Wainberg, fecharia, neste caso, a fronteira? Eu fecharia.

Compreendo o exército israelense. O aviso é o seguinte: não deixo entrar até haver segurança mínima, mas se alguém passar, disfarçado de enfermeira da ONU, por exemplo, não poderão dizer que o responsável por sua morte, se acontecer, foi Israel. E os que estão lá, tratem de se cuidar, porque a guerra não deixará de ser feita por causa deles. Há jornalistas lá? Sim. As redes de emissoras árabes, que mandam imagens para todo mundo, estão em Gaza. Alguns ocidentais já entraram por Israel e estão reportando para as agências de notícias do mundo inteiro.

São jornalistas, correm o risco da profissão. Não são os tais abobados do "pool", nem são os amestrados do "vem comigo, fica na minha turma e só fala bem de mim", que é a outra política elaborada pelos exércitos, divulgada pela matéria de Zero Hora. De qualquer forma, não temos um novo entendimento, como Wainberg caracteriza a postura do exército israelense com relação à mídia. É realismo puro. Comparemos: na Chechênia não houve novo entendimento? Nem na Ossetia? Na Somália, é o novo entendimento ou simplesmente é ovelho entendimento de sempre, segundo o qual, lá ná dá prá entrar, porque ninguém se entende na matança. E em Cartum, é o novo ou ovelho entendimento que se aplica ao genocídio sudanês? Tem jornalista embrenhado na selva colombiana para ver como está ocorrendo a guerra do exército daquele país contra as FARC?

Há uma jornalista citada na matéria, Paula Fontenelle, que viaja e viaja. Ela escreveu um livro para dizer que os exércitos querem controlar a informação sobre a guerra. Peraí. Imaginem se houvesse um exércitoque não quisesse controlar a informação sobre a guerra! Só o Exército de Brancaleone. O problema para o jornalista é buscar a informação que foge deste controle. Sempre foi assim, em qualquer guerra. Jornalista não é para ser publicitário nem marqueteiro de exército nenhum, embora muitos o sejam de fato. Os publicitários travestidos de jornalistas fazem um joguinho de neutralidade que prioriza o lado humanitário, como a CNN, por exemplo, e esconde o Hamas debaixo do tapete.

Na matéria de Zero Hora, há informações sobre o que é de interesse dos exércitos. É de uma obviedade que afronta: o interesse dos exércitos é ganhar a guerra. Os palestinos e os israelenses lutam no Youtube, os palestinos fazem fotos e filmam com telefones celulares, os israelenses dizem que não se deve dar ênfase aos mais de mil palestinos mortos. Mas o que diriam os israelenses? Dêem ênfase aos mais de mil palestinos mortos? Os israelenses enfatizam que a maior, bem maior mesmo, parte dos palestinos mortos são de terroristas do Hamas. As baixas civis são lamentáveis, mas é a guerra que está sendo travada, não é a guerra dos sonhos de jornalista nenhum.

O jornalista não deve ser um abestalhado, deve conhecer um pouco de lógica. Os israelenses têm lá suas razões nos números, porque depois de 20 dias de guerra contínua contra o Hamas, só há 1.160 mortos. E olhe que a máquina de guerra de Israel é poderosa. Se tivesse licença para matar, como escrevem alguns lunáticos, Gaza seria hoje só um ponto geográfico e o Hamas uma triste nota de rodapé na história recente das guerras entre judeus e árabes. É, judeus e árabes, assim mesmo, desde 1909. Mas a mídia é de uma tolice perversa.

Termino com o professor Vizentini: O Hamas, apesar de tratar-se de "um grupo primitivo", conta com uma estruturinha (o termo é meu, por inferência) interessante de propaganda. Usa porta-vozes que "falam bom inglês". Uma novidade na luta pela conquista de corações e mentes. "A estratégia do grupo é se mostrar como um legítimo governo palestino que resiste a uma agressão, o que é motivado por disputas internas".

Opa, opa. Quais disputas? E a guerra de agora? Conheço Vizentini. Acho que não deixaram ele falar ou cortaram, na edição, o que ele disse. Afinal, Vizentini, o que é um grupo primitivo? É um grupo terrorista? Mas o Sorel e o Lênin defendiam o terrorismo também. E você sabe! Então não é primitivo por causa do terrorismo. É por causa do islamismo fundamentalista? Na minha opinião, não é primitivo, em primeiro lugar. Pode ser bandoleiro, assassino, genocida, mas não é primitivo. É uma organização (não um grupo) que domina a Faixa de Gaza com o apoio do Irã e da Síria. Segundo lugar, estão armados como nunca outra organização palestina jamais esteve. Por isso a decisão de Israel de fazer a guerra. Terceiro lugar, dizer que uma organização destas é primitiva é menosprezar o problema e levá-lo para algum lugar historicista.

Concluo. O comentário rápido e evasivo estimulado pela matéria, a uma, de Wainberg, a duas, de Vizentini, desvia-se do ponto central do problema que, repito, é a guerra. Nessa guerra, se o camarada não tem lado, pelo menos que ajude a compreender a situação. Mas aí, o camarada, se é lúcido, falará de algum lugar teórico-explanatório coerente e assumirá uma posição. Opa, opa, opa. Aí não dá. Zero Hora é neutro e busca especialistas neutros.

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