"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

Galeano e a sordidez antissemita

Tenho à frente o artigo do escritor Eduardo Galeano, sem título, mas que é precedido pela seguinte epígrafe:


este artigo é dedicado a meus amigos judeus assassinados pelas ditaduras latino-americanas que Israel assessorou.


Enfrentarei a epígrafe, maliciosa, mais adiante. No que se segue, quero expor a sórdida argumentação do escritor no que respeita a Israel, ao recente conflito com o Hamas e aos palestinos. Para os que leram o artigo, adianto que tentarei não considerar os excessos retóricos de Galeano, que usa, por exemplo, o termo massacre para adjetivar o que ocorreu em Gaza. Em outros artigos - não estou só nisto, lúcidos me acompanham- já demonstrei que lá não houve massacre algum.


Galeano inicia o artigo com uma evocação à história. Diz ele: "desde 1948 os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua". A data aludida é a da independência de Israel. Relevante, no entanto, é registrar que antes de 1948, não havia, depreende-se, humilhação, quanto mais perpétua. O que havia? Árabes e judeus viviam sob mandato britânico. Desejaria o escritor retornar a esse status quo ante? Certamente que não. Mas o que deseja Galeano? Prossigamos.


Segundo ele, desde 1948, os palestinos "não podem nem respirar sem permissão. Perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, seu tudo". 1948, o marco zero da hecatombe palestina. Galeano mostra-se, ao melhor, como beligerante e não lapidado antissemita. Esquece que, em 29 de novembro de 1947, a Assembléia Geral da ONU promulgou a divisão da Palestina em dois estados, um árabe o outro judeu. E que, desde novembro de 1947, apoiados por libaneses, sírios, jordanianos, egípcios, sauditas e iraquianos, os árabes palestinos não só rejeitaram a Partilha. Eles tentaram impedir, a todo custo, a instalação de um estado judeu naqueles territórios que a ONU havia estabelecido. Senão vejamos:

(a) os árabes iniciaram, logo após anunciada a partilha, uma greve de protesto e promoveram ataques às comunidades judaicas que resultaram na morte de 62 judeus e 32 árabes; ao final de duas semanas de confronto com os judeus, 93 árabes e 84 judeus morreram. De novembro a 30 de fevereiro, morreram 1.427 árabes e 725 judeus. Apenas no mês de março, mais 271 judeus e 257 árabes foram mortos em ataques árabes e contra-ataques de judeus (fonte,Fact and File Yearbook, New York, Fact and File, Inc., 1948, p. 231);


(b) Em 26 de abril de 1948, o rei da então Transjordânia, Abdullah, declarou: "Todos os nossos esforços para encontrarmos uma solução pacífica para o problema palestino falharam. O único caminho que nos restou foi a guerra. Terei o prazer e a honra de salvar a Palestina" (fonte: Howard Sachar, A History of Israel; From the Rise of Zionism to Our Time, New York, Alfred A. Knopf, 1979, p. 322);

(c) 4 de maio de 1948, dez dias antes da proclamação da independência de Israel: a Legião Árabe, do rei Abdullah, atacou o kibutz religioso Kfar Etzion (fundado em 1943, com 220 habitantes em 1947), que ficava entre Jerusalem e Hebron. Com a Legião estavam grupos armados palestinos. Depois de duas semanas de resistência, os membros do kibutz renderam-se. Mesmo assim, 128 deles foram massacrados. Discute-se se o massacre foi perpretado cunjuntamente pelos soldados da Legião Árabe (com a conivência de oficiais) e combatentes das forças irregulares de palestinos (fonte: Natanael Lorch, On Long War, Jerusalem, Keter Books, 1976, p. 47 e Ralph Patai (ed) Encyclopedia of Zionism and Israel, New York, McGraw Hill, 1971, pp. 307-308). É um detalhe, para Galeano investigar.

O que disse a ONU sobre o triste episódio? Ela culpou os árabes pela "violência". Sua Comissão para a Palestina nunca pode entrar na área da partilha para implementar a resolução da Partilha (nº181). Já em 16 de fevereiro, quase três meses depois de aprovada a resolução pela Assembléia Geral, a Comissão para a Palestina relatou ao Conselho e Segurança: "interesses árabes poderosos, tanto dentro como fora da Palestina, estão retardando a [implementação] da resolução da Assembléia Geral e estão engajados em um esforço deliberado para alterar, por meio da força, o que foi estabelecido".


Os árabes, por seu turno, não se preocupavam em assumir a responsabilidade pela "violência". Jamal Husseini, o Alto Comissário Árabe para a ONU, afirmou ao Conselho de Segurança, em 16 de abril de 1948: "os representantes da Agência Judaica disseram-nos, ontem, que não eram eles que estavam atacando, que os árabes iniciaram os combates. Não negamos isto. Dissemos ao mundo inteiro que iríamos atacar (fonte: Security Council Official Records, Special Supplement, 1948, p. 20;


(d) nas semanas que se seguiram aos primeiros dias de abril, os judeus da Haganah, principalmente, e do Irgun rechaçaram as incursões árabes em suas cidades e assentamentos e tomaram a iniciativa dos combates, até a declaração de independência, em 14 de maio, dia em que os ingleses deixaram oficialmente a Palestina. Neste dia, cinco exércitos árabes (Síria, Egito, Transjordânia, Líbano e Iraque) invadiram Israel. É de se destacar sua intenção, expressa pelo secretário-geral da Liga Árabe, Azzam Pasha. "Esta será uma guerra de extermínio e um massacre momentoso, que será comparado aos massacres dos Mongóis e dos Cruzados" (fonte: Isi Leibler, The Case for Israel, Sidney, The Globe Press, 1972, p.15).


Agora, uma declaração do então chanceler soviético Andrei Gromiko (o escritor Galeano deve estar saudoso dele), no Conselho de Segurança da ONU, sobre a situação na Palestina, de 29 de maio de 1948: " Não é a primeira vez que os estados árabes, que organizaram a invasão da Palestina, têm ignorado uma decisão do Conselho de Segurança ou da Assembléia Geral. A delegação da URSS considera essencial que o conselho afirme sua opinião mais clara e firmemente com relação a essa atitude dos estados árabes, concernente a decisões do Conselho de Segurança (Security Council Official Records, SA/Agenda/77, 29 de maio, 1948, p. 2).

O armistício entre Israel e os invasdores árabes foi assinado ao final de 1949 e desenhou a situação na qual a Cisjordânia foi anexada pela Transjorndânia (incluindo Jerusalém Oriental) e a Faixa de Gaza, pelo Egito. O status quo beligerante permaneceu até 1967, sem que os palestinos tivessem sequer uma autonomia administrativa. Como sabemos, os territórios que hoje são aqueles no quais, pretende-se, seja criado um estado palestino independente, apenas em 1967 passaram a ser adminsitrados por Israel. E desde 1993, grande parte da Cisjordãnia possui um governo autônomo, reconhecido por Israel, da Autoridade Nacional Palestina. De Gaza, Israel retirou-se totalmente em 2005.

Relembro estes fatos conhecidos, porque, para parafrasear Galeano (em seu artigo), "tudo" foi omitido. Deliberadamente, é claro, para assustar criancinhas, com a imagem do cruel Israel contra os coitadinhos palestinos. Pura mistificação de uma psique obliterada pelo preconceito antijudeu.

Mas Galeano prosssegue: "são filhos da impotência os foguetes caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com desajeitada pontaria sobre as terras que foram palestinas e que a ocupação israelense usurpou".

Teratologia pura. Chamar os terroristas do Hamas de militantes (o escritor uruguaio deveria ler a Carta do Hamas, para ver que tipo de militância é esta que ele admira) é uma ofensa ao bom senso. Não são militantes, são terroristas asumidos e não lutam por uma terra que foi palestina, usurpada por Israel. Eles lutam para conquistar território que consideram muçulmano, para reetabelecer um califado transnacional baseado na jihad contra o Ocidente e no governo da sharia. Galeano é um esquerdofascista abobalhado pelo delírio, que adota, de seu (suponho) confortável flat de Montevidéu, uma organização assassina e obscurantista, pelo simples fato de que ela rejeita Israel. A lógica, perversa do escritor, é a lógica de uma resistência à ocupação (não da Cisjordânia ou Gaza) de toda a antiga Palestina, que ele idealiza, e que nada tem a ver com a realidade. Nunca houve pátria palestina na história. Galeano é um mitômano.

Prossegue ele: " em cada uma de suas guerras defensivas, Israel devorou outro pedaço da Palestina, e os almoços seguem. O apetite devorador se justifica pelos títulos de propriedade que a Bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu, e pelo pânico que geram os palestinos à espreita".

Pérola de uma mente obcecada com os judeus. Invocam a Bíblia, esses perseguidos há dois milênios, para devorar, com apetite insaciável, o que de direito pertence aos palestinos. Patético. Israel já devolveu o Sinai inteiro ao Egito em troca de um tratado de paz. Gaza, já entregou aos palestinos e o governo da Cisjordânia, fato que é inédito na história deste povo - que, lembremos, rejeitou a Partilha e lançou-se à guerra quando poderia ter criado seu estado-, hoje, está nas mãos da ANP. Tudo isso desaparece do horizonte mental de Galeano, quando se trata de explicar, para sua súcia naturalmente, o poder dos judeus.

Vale tudo, portanto. Galeano licenciou-se para fraudar. É um psicopata. Vejamos o que diz: "quem lhe deu [a Israel] o direito de negar todos direitos. De onde vem a impunidade com que Israel está executando a matança em Gaza?". Israel não executou matança nenhuma. Quem executou matanças foram Lênin, Stálin, Mao, Pol Pot, estes aos milhões, Fidel Castro e Milosevitch, estes às centenas de milhares. Stálin, em apenas um ano, matou de fome deliberadamente 7 milhões de ucranianos, entre 1932 e 1933. Jamais li nada de Galeano sobre esse horror. Nem li seus protestos contra a matança, que já chega a três centenas de milhares, praticada por árabes contra negros sudaneses.

Galeano sabe o que é matança. Mas ele considera algumas, desprezíveis como vimos, justificadas, ou porque ocorrem numa cultura ainda não bem conhecida por nós, ocidentais (a praticada pelos sudaneses) ou porque cometidas em nome da luta de classes e da impostiva adesão à ditadura do proletariado. Galeano pensa como um genocida. Seu modelo de líder latino-americano é Fidel Castro. Por isso recorre, como Stálin o fez, à idéia de que os judeus representam o mal absoluto. O escritor uruguaio deveria atentar para o fato de que, hoje, os assessores de Vladimir Putin, o homem forte da Rússia, falam abertamente em fascismo judeu e socialismo nacional. Sei, entretanto, que não adianta dizer, para alguém com a mente ofuscada pela idéia da criação de um "homem novo" - seja lá o quanto isto implique em extermínio- que os judeus estão se defendendo de agressores terroristas. Ou que Israel, diferentemente do Hamas ou dos demais árabes, que até 1979, tentaram destruir o estado judeu, pode sim ser criticado quando não cumpre esta ou aquela resolução da ONU. Mas qual delas, escritor? No texto ele fala em todas e ainda fala em desrespeito ao direito internacional. Isto é uma cretinice. Talvez a resolução de número 242 seja aquela visada pelo escritor. Mas esta não menciona estado palestino. Ela diz apenas que Israel deve se retirar de territórios ocupados em 1967 (não dos territórios).

É. O Hamas não pode se criticado quando lança seus "foguetes caseiros (os Grad são katiushas russos e os Kassam são fabricados em Gaza, em série). Por quê? Por que é integrado por "militantes acuados". São só 25 mil deles, escritor uruguaio. Treinados e armados para destruir o "pequeno Satã". Crítica, convenhamos, é uma coisa. Delírio é outra. Galeano se encaixa nessa última categoria.

Daí para o encerramento, do qual não me ocuparei, porque se trata de um texto evangélico de um carcomido comunista. É um ultraje à sanidade e uma ode ao maniquesísmo stalinista. Quem quiser que leia. Retorno daqui ao ponto inicial, à epígrafe insidiosa, dedicada aos "amigos judeus assassinados pelas ditaduras latino-americanasassessoradas por Israel".


Como assim? Israel transformou-se em assessor de ditaduras que assassinavam judeus? Mas o que quer dizer isto? Muita coisa e coisa nenhuma. Muita coisa de Galeano, o falsário, o caluniador, e pouca coisa de Israel. É uma abjeta falácia lançada ao ar, como coisa assentada, para instruir uma argumentação antissemita. Primeiro: Quando e como Israel assessorou alguma ditadura? De que modo, com que propósito? Há provas desse assessoramento? Onde estão? Galeano não prova nada, apenas anuncia a descoberta indesmentível.

Governos israelenses adotaram políticas pragmáticas em suas relações internacionais com respeito a países que estavam sob ditaduras. Mas só Israel fez isto? Claro que não! Todo mundo fez isto. Não me lembro da França, para tomar um exemplo, ter rompido relações com o Chile de Pinochet ou com a Argentina da Junta. Nem a Holanda. E nem a extinta União Soviética.

O pragmatismo das razões de estado é um fato e pode levar um país a ter posturas aparentemente contraditórias. Os EUA, por exemplo, nunca deixaram de ser uma democracia e foram os maiores apoiadores de ditaduras na América Latina. Marxista teórico adora contradição. Eu detesto, vejo as coisas por outro prisma. Havia uma guerra, a Guerra Fria, onde havia dois campos, o totalitário comunista e o democrático-liberal (termo horrível, para um marxista).

A Guerra Fria foi uma guerra suja. Nela os países ou eram satélites (ou tutelados) do totalitarismo ou eram aliados dos EUA. Israel era aliado dos EUA. Inimigos de Israel, como a Síria, a Líbia, o Egito e a OLP, estavam do lado da URSS. Países sem tradição democrática, como os nossos da América Latina, oscilavam.


A guerra foi travada em nosso subcontinente e os EUA só perderam em Cuba. Ditaduras militares surgiram de um lado -a brasileira foi a primeira- e grupos guerrilheiros marxistas, alguns terroristas, surgiram de outro. Havia judeus nesses grupos e Galeano conheceu alguns deles. A repressão à luta armada dos movimentos revolucionários de esquerda foi pesada. No Chile e na Argentina, cruel e assassina. Allende, que era de esquerda, foi apeado do poder de modo brutal, num golpe sustentado pelos americanos. Mas hoje podemos contextualizar isto. O que queriam os amigos de Galeano, inclusive os judeus? Implantar regimes totalitários na América Latina, como Cuba implantou. Se as ditaduras ainda não deixam cicatrizar as feridas que abriram em termos de indecência moral e crueldade, imaginem o que seria de nós, sob o tacão moscovita? Mirem Fidel e sua jóia cubana, que tem na conta cerca 95 mil assasinatos.

Mas Israel teria assessorado ditaduras que assassinaram judeus?É de se inferir que Israel apoiou mortes de judeus? Por que estes amigos judeus de Galeano foram assasinados? Não o foram porque eram judeus, é certo, porque senão eu também teria sido assassinado. É porque estavam em luta armada contra as ditaduras: eram montoneiros, eram do ERP, eram do MIR chileno, eram tupamaros, eram do POC e do PC do B. Foram torturados e assassinados, muitos deles, é verdade, mas estavam em guerra. Por ter sido uma ditadura, por ter participado da Operação Condor, por ter torturado pessoas e eliminado outras, por ter sido um estado de exceção, o Brasil perde sua legitimidade como nação? Perderia, por ter dizimado os paraguaios em Assunção, ao fim da famosa guerra movida contra Solano Lopez? O escritor uruguaio é sórdido. Para ele, o mundo está dividido entre maléficos judeus sionistas e não-judeus (os judeus amigos dele não eram, é de se concluir, sionistas).

Como os nazistas, ele mente mil vezes para convencer-se da funcionalidade do ódio. Um ódio que julga ser civilizado, desde que colocado a serviço de uma causa, a sua causa totalitária. Ele pode, a partir daí, escolher os judeus que estão ao seu lado. Ele sente-se à vontade para excluir os judeus sionistas de sua fraterna curriola de assassinos, porque aqueles não passam, segundo sua lógica antissemita, de usurpadores de pátria alheia. Na patota de Galeano, há lugar para o Hamas. Os terroristas islamofascistas são bem vindos no esquematismo que se esconde da história e das evidências para operar no mito.

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