"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

Lula, o Sudão e Gaza



A recente visita do chanceler brasileiro Celso Amorim ao Oriente Médio não resultou em nada. Amorim começou seu tour por Damasco, depois foi a Jerusalém e Ramallah, entrevistar-se com Tzipi Livni e Mahmoud Abas, respectivamente. Para Livni, sua colega israelense, Amorim teria transmitido a intenção do Brasil de ajudar na negociação de um cessar-fogo imediato na Faixa de Gaza. A proposta foi cordialmente desconsiderada (não foi sequer rejeitada).

A imprensa israelense –que acompanho diariamente – não noticiou a presença do chanceler brasileiro em Jerusalem. Ou melhor, há um registro, feito pelo colunista do Jerusalém Post, Herb Keinon, sobre a entrevista do enviado de Lula com Livni. O texto é dedicado a uma análise das intenções de Hugo Chavez (o tiranete bolivariano, como o chama o jornalista Vitor Vieira) com relação a Israel. Chavez, segundo o colunista, não deseja romper relações com Jerusalém. Expulsar um embaixador de um país é um gesto de agravo diplomático, não de rompimento de relações. O tiranete apenas aproveita-se do conflito para marcar posição junto à esquerda internacional e fortalecer suas relações com o Irã.

Há 15 mil judeus na Venezuela. Israel preocupa-se com essa comunidade e não tem a intenção de acirrar os ânimos de Chavez, que pode usar o conflito do Oriente Médio para ampliar ainda mais a presença iraniana na América Latina. Segundo Keinon, Jerusalém estuda enviar para Caracas um representante para assuntos internacionais. É algo como um embaixador de grau secundário. Chavez aceitaria, momentaneamente, a presença deste tipo de representação. Mais tarde, quando os canhões cessarem na Faixa de Gaza, Israel faria retornar um embaixador à Venezuela.

Quanto a Celso Amorim, informa o colunista, ele chegou a Israel vindo de Damasco - onde entrevistou-se com o presidente Bashar Assad - sem qualquer proposta de cessar-fogo. Amorim sequer foi portador de uma mensagem de Assad. O colunista do Jerusalem Postconclui que o Brasil pretende se afirmar como nação importante no contexto global e que, por isso, considera seu envolvimento no Oriente Médio impositivo. Quanto ao discurso do governo brasileiro em relação à ofensiva israelense, escreve o colunista: é idêntico ao de muitos países europeus. O Brasil deplora a “reação desproporcional de Israel” expressa preocupação com a situação humanitária na Faixa e chama às partes para um imediato cessar-fogo.

Escrevi, em outro texto (ver no blog), que o governo lulista quebrou a tradição diplomática brasileira quando usou o termo “deplorar” em sua manifestação sobre a ofensiva israelense em Gaza. Permito-me estabelecer um termo de comparação: o Brasil de Lula jamais deplorou o que o governo do Sudão faz com seu próprio povo. Ao contrário. Em abril de 2007, Lula negou-se a enviar tropas brasileiras, que serviriam sob a bandeira da ONU, para Darfour, onde se encontram cerca de três milhões de refugiados sudaneses. Na época , o jornal O Estado de São Paulo notinciou que a negativa deveu-se ao fato de que o Itamaraty (de Celso Amorim) vinha evitando discutir a responsabilidade do governo sudanês na crise. Motivo? A intenção do governo Lula em garantir o apoio dos países africanos para sua pretensão de obter uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Para o governo Lula, não importa que os tiranos do Sudão estejam praticando um massacre contra seu povo. São, segundo estimativa mínima da ONU, 300 mil assassinados (homens, mulheres, crianças) nos últimos cinco anos. As vítimas da barbárie são cristãos e animistas. Há, como referi acima, em torno de três milhões de refugiados na zona de Darfour, devido a essa limpeza fundamentalista. Mas o Brasil jamais deplorou as ações do governo sudanês. Ou ao menos as criticou, objetou ou censurou. O Brasil não só calou-se e cala-se, como ainda negou-se a enviar tropas para Darfour. Por essa razão, é cúmplice do morticínio. Nada mais cristalino.

A diplomacia de Lula está banhada de sangue. Essa mesma diplomacia, conduzida pelo fanatismo ideológico e ginasiano de Marco Aurélio Top Top Garcia e pela caricata figura de Celso Amorim, é a mesma que apressou-se em deplorar a ofensiva israelense, pelos mesmas razões que a fazem calar diante da carnificina sudanesa, a saber: conquistar votos do terceiro e quarto mundos para suas pretensões imediatistas nas Nações Unidas.

O objetivo de tornar-se integrante permanente do Conselho de Segurança da ONU seria compreensível, se partisse de um país emergente e não-alinhado. Mas o caso é outro. O Brasil é alinhado com o castrismo, com o chavismo, com o Sudão e com o Irã. Em breve, o presidente Ahmadinejad, que apregoa não ter havido o Holocausto e se diz compromertido com a extinção de Israel, chegará a Brasília para uma visita oficial. Lula o receberá com honrarias, para nossa vergonha e preocupação. O papelão de Celso Amorim na sua recente voltinha pelo Oriente Médio insere-se nesse contexto. Nosso pífio chanceler foi protocolarmente ignorado por sírios, israelenses e palestinos. Mas pensa, com mentalidade de manual terceiro-mundista, que marcou um ponto junto aos seus companheiros.

Não merecemos isto.

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