"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

Neutralismo e a questão palestina

Recebo comentários referentes a meu recente artigo sobre afuturopreterização aplicada ao noticiário por jornais menores. Afirmei que esse expediente deforma o jornalismo, porque o afasta da narrativa ainda que mais trivial dos fatos. Fui acusado de elevar um descuido textual à condição de norma jornalística. Usar o futuro do pretérito em narrativas de fatos, é, todos concordam, inaceitável. Mas não é esta a norma. Em verdade, teria eu (dizem, alguns) me aproveitado de um mero deslize para identificar, no noticiário sobre a ofensiva israelense contra o Hamas, uma tendência editorial anti-israelense. E como, denunciam certos leitores, o jornal no qual a futuropreterização está localizada, a saber, o Zero Hora, pertence a judeus, minha crítica seria improcedente.

Há aqui um desvirtuamento do que escrevi. Analisei um texto do noticiário de um jornal para identificar, a partir dele, uma prática recorrente de jornais miúdos, prática que amesquinha o jornalismo. Afuturopreterização do noticiário não é episódica nesta prática. Ela vem acompanhada de outros expedientes editoriais e textuais que tornam o jornalismo diminuto. Não creio ser tal prática casual. Fazer o antijornalismo no jornalismo é, infelizmente, uma deliberada orientação em certas redações. Quanto à constatação de que Zero Hora pertence a judeus, a mim não incomoda. É óbvio que acusar o jornal de praticar o subjornalismo não é o mesmo que acusá-lo de antissemita.

Não há nada no que escrevi que autorize extrair do que lá está tal conclusão absurda. Somente uma mente viciada pelo antissemitismo coloca, contra meu argumento, o fato de que judeus são proprietários do miúdo jornal, como a demonstrar que minha critica não é pertinente. Tal ponto de vista é uma perversão e identifica, no jornal criticado, precisamente o que ele não faz, a defesa de Israel. E, em meu artigo, jamais afirmei que Zero Hora deveria fazer a defesa de ninguém. Apenas constatei que o jornal pratica um jornalismo de segunda linha e que, neste tipo de jornalismo, se nivela os interesses de um Estado em sua defesa legitima com os interesses de uma organização terrorista, cujo anseio maior é destruir este estado. Ponto final.

Dessa maneira se coloca também a discussão sobre o flanqueamento binário do noticiarismo. Aparece aqui a forma redutiva de enfrentar o real, logo de falsificá-lo, considerada a complexidade de qualquer fato. Imaginem se, para um historiador, em seu ofício, fosse impositivo levar em conta apenas dois lados. Ou para um médico ou engenheiro ou juiz. Quaisquer fatos, ou seja, tudo aquilo que se dá à apreensão perceptiva - já me referi à percepção, não é mero fenomenismo, mas fenomenologia na qual estão imbricados estímulos sensoriais com complexa moldura cognitiva-, possuem diversidade de aspectos. O jornalista, em seu ofício, deve tornar, na narrativa textual, a apreensão dos fatos condizente com uma cognição veritativa do real.

Escrevi, em outro artigo (ver nesse blog) que a teoria da verdade do jornalista é a teoria da correspondência. Assim, o que interessa ao jornalista é a verdade, aquela que lhe é intrínseca e que deve partir do discernimento entre o verdadeiro e o falso, o certo e o errado, o bem e o mal, o justo e o injusto. O jornalismo é impregnado de moralidade. Não se pode ignorar o fato de que a mentira, a hipocrisia, a corrupção, o assassinato, o estupro, o massacre, o terror, a pregação racista ou antissemita, a tirania, a falta de liberdade política, enfim, tudo isso, não só é condenável como inaceitável. A rejeição do mal é uma conquista da civilização e relativizá-la ideologicamente não é torável para um jornalista.

Infelizmente, o neutralismo é uma mera ideologia relativista. Atentemos: não há, sequer na mais descompromissada apreensão do real, lugar neutro. O conforto mesmo da trivial apreensão perceptiva não é imune ao erro. A mera percepção é já orientada por uma perspectiva. Imaginem aquela, da qual nos servimos para formular juízos mais elaborados, envolvidos no exercício de um ofício. E se o ofício for altamente especializado? Discernir apropriadamente a fatualidade que importa da que não importa (já é uma tarefa difícil em si mesma) e, sobre ela, elaborar juízo capaz de orientar a ação, não é simples. Fatos agregam-se a outros fatos, consequentes, paralelos, subsequentes. O real se mostra intrincado, as soluções de problemas solicitam memória e investimento psíquico. Quanto menos esforço, no sentido mnemônico e intelectualmente reflexivo, maior o grau de simplificação do problema a ser resolvido.

Em sendo pouco o esforço, maior será a precariedade da ordem mental da qual partem juízos sobre os fatos. A moralidade cede ao maniqueísmo. Todas as guerras são deploráveis, por exemplo, é um lema maniqueísta. Ora, isso é falso. Há guerras não deploráveis, justas, impostivas. Eu faria uma contra os muçulmanos árabes do Sudão, agora. Por quê? Porque eles estão cometendo assassinato em massa, contra negros não-muçulmanos. E na República Democrática do Congo, eu interviria militarmente, se pudesse, porque hutus continuam a ser assasinados e submetidos a todo tipo de violência por ugandenses. Se pudesse, eu apearia do poder a tirania castrista de Cuba, libertaria seus presos políticos, levaria seus governantes a julgamento por crimes contra a humanidade. Se eu pudesse, eu faria tudo isto. E se pudesse, ainda, lutaria contra a tirania islamista do Irã e de seus vassalos Hamas e Hezbolllah, porque contrariam os princípios civilizatórios dos quais não abro mão. Eles glorificam a morte, enquanto eu valorizo a vida. Eles querem o mundo todo islamizado, eu quero o mundo plural. Eles não atribuem dignidade à pessoa, impõem a sharia - a lei islâmica- onde governam. Eles decepam mãos, condenam conversos a outras religiões e mulheres, pela simples suspeita de adultério, à morte, fazem apologia do suicídio em nome da jihad. Nada há de aceitável no que fazem ou repetem à exaustão. Querem exterminar os judeus, literalmente, dizem isso a todo instante. Israel, para eles, deve ser aniquilado.

Como desconhecer esses fatos? Não aceito essas práticas, elas não são civilizadas. Podem ser humanas, infelizmente, mas não são civilizadas. Sugiro que cada crítico, cada combatente ideológico de Israel, visite a Faixa de Gaza sob controle do Hamas. Ou vá ao Irã ou a uma caverna do Afeganistão, onde se escondem terroristas da Al Qaeda. E que leve para lá suas idéias maniqueístas de humanismo. Ou terá de abandoná-las e abraçar o Corão ou terá sorte se for escorraçado.

Defendo Israel, sim. Sou sionista, porque nunca vi e não vejo ódio no sionismo. Israel é um país que se impôs em meio ao ódio. Não me venham ensinar sionismo, não me venham com os argumentos do celerado antissemitismo, disfarçado de antissionismo, de Norman Finkelstein e Noam Chomsky ou Ilan Pappé, porque já sou bem crescidinho. Não me venham dizer que os palestinos são coitadinhos. Eram em 1948? Eram quando viviam sob o regime da Jordânia e do Egito, até 1967?

Já li até que a Hagana era terrorista. Não era, nunca foi, parem com oapriori antissemita. Vivi em Israel, já li muito sobre tudo isto. Lembrem do que fez o Rei Hussein, da Jordânia, quando Arafat e a PLO tentaram derrubar sua monarquia, em 1971. Debelou a revolta sem piedade, matou milhares de palestinos e fez com que outros milhares buscassem refúgio no Líbano. A violenta contra-insurgência de Husssein ficou conhecida como o Setembro Negro, lembram?

Por que não há judeus nos países árabes? Foram todos expulsos. Por que a presença de judeus nos territórios ocupados em 1967, depois de uma guerra contra cinco países árabes, não é admitida? Se houver um estado palestino, e espero que haja, por que não pode haver judeus nele? Hoje são 180 mil judeus a viverem por lá, em meio a 2,5 milhões de palestinos. Tomara que venham a ser cinco milhões de palestinos, mas não posso entender o conceito de uma Palestina Judenrheit. Judeus têm o direito de viverem onde escolheram, seja na Grécia, no Brasil ou na Palestina. Não defendo o expansionismo sionista e, hoje, há apenas uma ultradireita residual que o defende em Israel. Mas a simples remoção dos judeus que vivem no futuro território do estado palestino coloca-me diante de uma questão moral: por que os judeus não podem ficar lá? Por que, mais uma vez, um estado Judenrrheit?

É uma questão política, sei bem. Talvez, numa negociação de paz permanente, venha-se tratar da questão dos 180 mil judeus que vivem na Palestina de modo realista e aceitável para os dois lados que negociam. Não me atrevo a fazer conjecturas sobre o futuro. Mas, repito, há um problema moral aqui, o do estado sem judeus. Por quê?

Obviamente, há políticas de imigração importantes para qualquer país. Imaginem se a França decidisse, de uma hora para outra, aceitar todos os argelinos ou nigerianos que querem emigrar para seu território. A França deixaria de ser a França e ser francesa é uma coisa importante para ela. O mesmo vale para a Espanha com relação ao Marrocos. Não há como absorver este tipo de migração. Ela viria a pulverizar o estado nacional, sua identidade, viria também a gerar um colapso econômico, conflitos étnicos, culturais e sabe-se mais lá o quê.

Os palestinos farão bem em reconhecer que a presença dos judeus que estão em seu futuro estado não é uma ameaça. Da mesma forma, os israelenses devem manter as fronteirtas com a Palestina abertas para que árabes possam trabalhar em Israel. Sem os judeus, os palestinos não têm qualquer futuro. A convivência pacífica entre dois povos, distintos em muitos aspectos, mas que se respeitam, é condição necessária para que haja paz entre eles. Convivência pacífica, sem terror, sem Hamas, sem essa ideologia assassina.

Fazia parte dos Acordos de Oslo, de 1993, o compromisso para que israelenses e palestinos investissem em educação para a paz. Israel nunca foi uma nação do ódio, por isso é fácil, para ele, implantar uma educação que reconhece os legitimos direitos dos palestinos. Mas do outro lado nunca funcionou assim. Paz sempre representou a extinção de Israel, mesmo com Arafat. As escolas palestinas estudam, até hoje, o mapa da região sem Israel.

As crianças palestinas, hoje ainda, são ensinadas que os judeus são ocupantes. Não de Ramallah, Belém ou Jericó. Mas de Haifa, Eilat e Nazaré, para não falar de Jerusalém. Que paz pode ser implementada nessas condições? Paz se faz entre nações que se reconhecem como distintas. Novamente o mútuo reconhecimento, condição necessária. Não apenas no papel, mas de fato. Se os palestinos tivessem feito isto, já teriam seu estado.

A ofensiva de Israel em Gaza foi justa. Houve mortes de civis?Houve, mas este é o preço que o povo palestino está pagando por ter se submetido - há várias explicações para isto, eu sei - ao regime do Hamas. É hora, portanto, das lideranças palestinas que aceitam Israel de verdade, tomarem a frente das negociações que objetivam criar um estado palestino factível. E é hora de muitos jornalistas pensarem melhor sobre a natureza de seu ofício.

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