"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

Notas, sionistas e o mal absoluto

Os sionistas que, por algum motivo, são filiados ao Partido dos Trabalhadores, estão convivendo com um problemão, devido à nota emitida pelo presidente do partido deles, na primeira semana de janeiro. A tal nota é execrável: todos aqueles que a leram sabem que ela acusa Israel de praticar um massacre em Gaza. É mentira deslavada, pura propaganda antiisraelense. Mas este é o centro gravitacional da nota petista. O resto é acessório.

O PT é o partido que governa o país. O partido de Lula e de Marco Aurélio Garcia, o Top Top, como ficou conhecido o assessor especial do presidente para assuntos internacionais. É certo que boa parte dos governos do mundo está se manifestando sobre a ofensiva israelense na Faixa de Gaza. Assim, é compreensível que o Brasil também se manifestasse. O Itamaraty, se fosse coerente com sua posição historicamente não-alinhada, poderia emitir uma nota lamentando a eclosão de mais um confronto entre israelenses e palestinos no Oriente Médio. Poderia até referir-se ao triste ciclo de beligerância que não é rompido na região. Mas o governo Lula avançou o sinal: em nota, “deplorou” a operação militar israelense. Deplorou por quê? Pelo visto, devido àquilo que a ONU e a mídia têm chamado de “grande número de baixas civis em Gaza”.

Deplorar é um juízo de valor, também na diplomacia, radical. Deplora-se o que é abjeto, ilícito, ilegítimo, imoral. Então nos vemos diante deste juízo, que é enfático, com respeito a Israel. Ora, seria apropriado se o Brasil viesse a deplorar, por exemplo, a recente ação russa na Ossetia (Geórgia). Ou a repressão chinesa aos monges tibetanos – fatos esses recentíssimos. Tais ações não foram deploráveis, para o governo lulista.

Já a ação de Israel é de se “deplorar”, mesmo que, para tanto, se transgrida o compromisso com a verdade. Se não viesse a deplorar de modo tão expedito a ofensiva de Israel na Faixa, o governo lulista teria notado que o número total de mortos até hoje confirmados em Gaza (escrevo em 10 de janeiro), é de setecentas pessoas, a grande maioria de militantes e de milicianos do Hamas e da Jihad Islâmica. Há vítimas civis? Sem dúvida há. Mas os combates são travados numa área de 360 quilômetros quadrados (a metade do município de Porto Alegre) povoada por 1,5 milhão de pessoas. Neste cenário, como aliás já escrevi, não há como falar em nada parecido com massacre.

Mas o governo brasileiro inflou a papada e falou. Um absurdo diplomático, desferido contra Israel, um estado amigo, que está tratando de resolver, de modo militar (e que modo outro haveria?), um problema terrorista gravíssimo. Se expelido por Hugo Chavez, Raúl Castro ou Mahmoud Ahmadinejad (do Irã), a rasteira censura, o deplorar, seria de se entender. Afinal estes aí são facínoras, apóiam e financiam o terror. Mas o Brasil não faz isto. Logo não tinha de deplorar nada, porque não há nada a ser deplorado.

Mas Lula deplorou, mesmo contra todas as evidências que a diplomacia brasileira, aquela boa diplomacia de carreira (não a do Top Top Garcia) teria certamente coligido, para só depois, formular uma declaração a ser assinada pelo governo. Mas Lula e o Top Top queriam mesmo deplorar. Sua nota não foi – e não era para ser – diplomática e lúcida. Era para ser ideológica.

Quanto à nota petista e aos sionistas no PT. A nota do Partido (com P maiúsculo mesmo), descontada a extravagância do texto, é um tanto saudosista quanto a um tempo em que, internamente, as várias tendências petistas discutiam se uma posição abertamente pró OLP era a mais apropriada para uma agremiação de esquerda “moderna”. Falo do início dos anos 80, quando o PT reunira a quase totalidade da esquerda brasileira em suas fileiras, mas ainda engatinhava politicamente. Algumas tendências demonizavam Israel e outras aceitavam o estado judeu. Ao longo do tempo, os fatos trataram de trazer o PT para uma posição pragmática: dois povos, dois estados e ponto final.

Agora, porém, parece que a posição demonizante com relação a Israel volta a dar o tom das hostes petistas. Ricardo Berzoini assinou, obviamente com o beneplácito de seu chefe, o próprio Lula, um texto que esbraveja contra Israel e o acusa de ter praticado atos que não praticou. Mas não penso que seja a velha ideologia comunista de Berzoini que esteja pautando essa, chamemos assim, oratória oficial do Partido. É, creio, o novo esquerdismo doentio que se abraça ao Irã fundamentalista e terrorista para delinear um eixo de poder alternativo, capaz de fazer frente ao poderio norte-americano.

Não é de se desdenhar o viés da diplomacia brasileira, que é do Lula, do Berzoini e do Top Top Garcia. Eu, como brasileiro, estou preocupado. Está em fase de agendamento a visita Ahmadinejad ao Brasil, enquanto se noticia a chegada ao país de um representante de Teerã, para discutir com nossas autoridades o “problema da Faixa de Gaza”.

Bem, se o quadro é este, como ficam os sionistas no PT? Com Lula, Berzoini, Top Top Garcia e Ahmadinejad? Ou com o apoio a Israel, que está travando uma guerra defensiva contra os terroristas do Hamas? Se escolherem a segunda alternativa, não há mais espaço para eles no PT. Se escolherem a primeira, não há mais espaço no sionismo.

Alguém pode dizer: fico no PT e apóio o discurso do Uri Avineri, o conhecido pacifista israelense. Registro aqui: Avineri não é só pacifista. Ele também pensa – e de há muito - que Israel controla inteiramente o processo de pacificação com os palestinos, em especial, e os árabes, em geral. Nisto, ele está ainda mais à esquerda do que a esquerda israelense, representada pelo partido Meretz. De toda forma, trata-se de um erro de fundamento. Historicamente, Israel tem, é claro, parte importante deste controle, conquistada desde a sua independência e depois de guerras sucessivas. Mas os palestinos e o mundo árabe, são muito, mas muito, responsáveis pelo atual status quo da região. E para cada Avineri (são pouquíssimos como ele em Israel) – concedo aqui, para argumentar, tratar-se de um figura intelectual proba - há centenas de intelectuais israelenses que, com razão, apóiam a ação militar na Faixa de Gaza. Querem conferir? É só fazer uma visita aos sites jornalísticos do Haaretz e do Jerusalém Post.

Para os sionistas petistas, o assunto deflagra, portanto, o dilema de Hamlet. O que não dá para fazer é ficar em cima do muro. Lula pensa que pode gerenciar a diplomacia do mal ( o castrismo e o chavismo) na América Latina. Sabe-se lá, talvez ele se inspire em Neville Chamberlain, o primeiro-ministro inglês, que entregou parte da Checoslováquia a Hitler em troca de um acordo de paz (conhecido como Acordo de Munique, firmado em 1938, por Inglaterra, França e Alemanha). Com o acordo em mãos, Chamberlain voltou a Londres e foi recebido por multidões, aos gritos de vitória. Deu no que deu depois, todos lembramos.

Hanah Arendt dizia: o mal absoluto não pode ser tolerado. Na luta contra o mal absoluto (o Hamas, o Ahmadinejad), ninguém pode ficar neutro, quanto mais aproximar-se dele.

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