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"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

O antissemitismo, a ilustração e a esquerda

publicado na Gazeta do Povo, de Curitiba, em 7 de fevereiro de 2009

Diante da histeria anti-sionista que varreu o planeta depois de iniciada a ofensiva de Israel contra o Hamas, convém refletir sobre a natureza do anti-semitismo contemporâneo. Um dos mitos mais apregoados pela propaganda da esquerda mundial contra o sionismo é a equiparação que dele se faz com o nazismo. Essa idéia, se é que assim podemos chamá-la, foi originalmente produzida depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967, por Leonid Brezhnev, então presidente e secretário geral do Partido Comunista da União Soviética. Em 5 de julho daquele ano, Brezhnev declarou ao Pravda: “Nas suas atrocidades contra os árabes, parece que os israelenses desejam copiar os crimes dos invasores de Hitler”.

A declaração poderia impressionar apenas a desatentos. O antissemitismo sempre foi um componente do esquerdismo, marxista ou não. No século XIX, Charles Fourier, um dos fundadores do socialismo francês, chamava os judeus de “parasitas, mercadores e usurários” e afirmava que sua emancipação “viria a configurar o mais vergonhoso de todos os recentes vícios da sociedade”. Na medida em que o socialismo herdou do Iluminismo do século XVIII o anti-clericalismo, também reproduziu seu anti-semitismo secular, que encontramos no pensamento não só de Fourier, mas também de Toussenel, Leroux e Proudhon. Marx, ele mesmo um judeu convertido aos seis anos pelo pai, no ensaio A Questão Judaica, de 1844, fixou um parâmetro de interpretação do judaísmo até hoje invocado por seus seguidores. “Não apenas no Pentateuco e no Talmud, mas também na nossa sociedade atual, encontramos a essência do Judeu moderno”. Ao que Marx se referia? Cito: “Qual é o culto secular do Judeu? O regateio. Qual é o seu deus secular? O dinheiro. Pois bem! A emancipação do regateio e do dinheiro, do judaísmo prático e real, será a auto-emancipação do nosso tempo”.

O pendor de Marx para o panfletarismo, que convivia com sua capacidade analítica, é inconteste. Marx foi capaz de escrever os Manuscritos Econômico-filosóficos, um texto denso, mas também elaborou, com Engels, o Manifesto Comunista, um panfleto dirigido às massas. Ele voltaria muitas vezes a se referir aos judeus de forma odienta, nas Teses contra Feurbach, na Sagrada Família e no próprio O Capital.

Nada que causasse maior incômodo aos leitores de seu tempo, acostumados com as variadas formas do antissemitismo, fosse de extração cristã ou de conformação racionalista. Voltaire, cujo pensamento deísta teve um profundo impacto na visão secular de mundo ocidental dos séculos XVIII e XIX, era obcecado com os judeus. Seu famoso Dicionário Filosófico (1756) dedica 38 dos 118 artigos aos judeus, “os nossos mestres e inimigos, em quem acreditamos e que detestamos”, como os descreve no artigo dedicado a Abrahão.

Voltaire não estava sozinho no Século das Luzes. Outras figuras proeminentes eram antissemitas, como Mirabaud, conhecido por sua obra anti-religiosa. Para ele, “não apenas todas as nações odeiam os judeus; elas os odeiam e acreditam que estão justificadas em odiá-los e humilhá-los. Eles, os judeus, são odiados porque são flagrados na observância de seus costumes tidos como ridículos”. Rousseau, mais tolerante, não se conformava com a Divindade judaica. Em sua Profissão de Fé, de 1769, escreveu: “Aquele que começa escolhendo só para si um povo e proscreve o resto do gênero humano não é o pai comum dos homens”. Em outro texto, Considerações sobre o Governo da Polônia, mostra admiração por Moisés de um modo extravagante: “Ele formou e executou o espantoso empreendimento de instituir como um corpo de nação, um enxame de desgraçados fugitivos, sem artes, sem armas, sem virtudes, sem coragem e que, não tendo como seu um palmo de terreno, formavam uma tropa estrangeira sobre a face da terra”. Para ele, os judeus receberam de seu maior líder, costumes e usos inconciliáveis com os das outras nações, para impedir que se fundissem entre outros povos. “[Moisés] sobrecarregou-o [a esse povo] de ritos, de cerimônias particulares; incomodou-o de mil maneiras para mantê-lo em bom estado e torná-lo sempre estrangeiro entre os outros homens”.

Paul Henri d’Holbach, o barão alemão materialista que vivia em Paris – que oferecia aos seus amigos os famosos jantares filosóficos, na segunda metade dom século XVIII-, considerava os judeus inimigos da humanidade. Ao analisar o livro O Espírito do judaísmo ou exame racional da lei de Moisés, de 1770, de autoria atribuída ao inglês Anthony Collins, afirmou:“esse povo, unicamente querido por um Deus imutável, tornou-se muito fraco e muito miserável. Vítima em todos os tempos de seu fanatismo, de sua religião insociável, de sua lei insensata, agora está disperso por todas as nações, para as quais ele é um monumento duradouro dos efeitos terríveis da cegueira supersticiosa”.

Para esses racionalistas, aos judeus, estava reservada, na sociedade secular, a completa assimilação e, por conseguinte, a sua extinção como povo. Mesmo Montesquieu, no ensaio célebre, O Espírito das Leis (1748), acusa o Judaísmo de ser uma “religião da ignorância” e os chama a deixarem de ser judeus para tornarem-se homens da Ilustração e filósofos.

A secularização da sociedade fez com que o antissemitismo, no curso dos séculos XIX e XX, adquirisse contornos pseudocientíficos, raciais ou de classe. O antigo ódio das igrejas Católica e Ortodoxa aos judeus transformou-se na rejeição do judaísmo de parte dos planejadores da sociedade, para os quais não havia mais lugar para um povo desenraizado e apegado a costumes que eles tomavam por ultrapassados. Para a esquerda, o sionismo, que se conforma desde o final do século XIX, contradizia a tese central assimilacionista de classe, segundo a qual o judaísmo não passava de um estamento medieval, a sobreviver nas franjas de uma sociedade industrializada. Seu destino, portanto, não era a emancipação nacional, mas a extinção.

Esquerdistas ainda esperam que o desígnio se cumpra, mesmo 61 anos da criação de Israel. Não é de surpreender a permanência, entre eles, da idéia assimilacionista. Sempre que podem, aliam-se a movimentos antijudeus para proclamar a ilicitude sionista. Dos anos 90 para cá, a aliança é feita com o islamismo judeófobo. Proclama-se, na propaganda iniciada ainda por Brezhnev, que Israel age com relação aos palestinos, como os nazistas agiam com relação aos judeus. Uma fórmula pérfida, de um socialismo putrefato, reproduzida por quem já viu ruir tudo aquilo em que acreditava, menos o antissemitismo.

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