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"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

O (des)caminho da guerra

Não há sociedade que não seja constantemente dividida entre as forças que trabalham para preservá-la e as forças subversivas - quer percebidas como tais ou não - que trabalham para sabotá-la. Fernad Braudel

The Perspective of the World, Civilization and Capitalism 15th-18th Century, vol 3, p. 537-8

A ONU tanto fez que, com a abstenção dos Estados Unidos, seu Conselho de Segurança aprovou uma resolução que determina -esta é a pretensão- que as duas partes do conflito declarem um cessar-fogo imediato na Faixa de Gaza. A resolução não será cumprida. O governo de Israel já reiterou: prosseguirá com as operações militares até que seus objetivos sejam atingidos. E o Hamas também rejeitou a resolução do Conselho de Segurança, por considerar que a medida não satisfaz suas exigências. Que exigências são essas? O desbloqueio naval, que permitiria a entrada de armas, via marítima, por Gaza, e o desbloqueio terrestre, que permitiria a entrada, em Israel, de suicidas-homicidas em território israelense. É claro que o Hamas não diz oficialmente desejar fazer tais coisas, na sua atual situação. Afinal com o apoio de grande parte da mídia ocidental e da maior parte da chamada “rua” árabe, seus líderes imaginam que Israel está acuado, entre, por um lado, a tal “crise humanitária” e “a ação desproporcional” e, por outro, o impacto emocional que as baixas de militares podem provocar na população israelense. O Hamas espelha-se no enfrentamento ocorrido entre o Hezbollah e Israel, no Líbano, em 2006. Houve grande número de mortos israelenses, o Hezbollah não foi destruído nem militar nem politicamente, e Israel ainda sofreu severa crítica interna. Resumindo, para o Hamas, o Hezbollah enfrentou e venceu -no sentido de que não foi extinto como força política e militar- o “Pequeno Satã”.

Permito-me uma pequena digressão. Israel, em 2006, cometeu, sim, erros estratégicos. O principal deles foi declarar que destruiria o Hezbollah numa operação de curto prazo e retornaria suas tropas para a fronteira natural com o Líbano. Não conseguiu, porque isto não era factível, como revelou mais tarde o relatório Winograd. Uma vitória militar pontual sobre o Hezbollah, não eliminaria, como não eliminou, as forças da organização terrorista. Elas estavam já bem armadas e treinadas para a guerra assimétrica, que atraía os israelenses para confrontos em vilarejos do sul do Líbano e em Beirute, sem obviamente importar-se com os danos colaterais do enfrentamento.

Houve mais de 1200 mortes de libaneses e o número das baixas de soldados israelenses chegou a 160, em um mês de conflito. Como sempre, a CNN, a BBC, a ONU, a FIFA, o Chavez, o Chapolin e o PTdoLula (assim mesmo, no caso específico, brasileiro, mas também naquilo que ele representa como ideologia no mundo, a saber, o neocomunismo de Marco Aurélio Top Top Garcia e do camarada Berzoini) se encarregaram de colocar as vítimas civis na conta de Israel.

Somente uma guerra de espectro mais amplo poderia resultar naquilo que Israel pretendia obter, a saber, a pacificação do sul do Líbano. Mas a falta de uma coordenação mais fina entre a inteligência militar e o gabinete chefiado por Ehud Olmert, terminaram por fragilizar a ofensiva israelense, submetendo-a, na medida em que os combates se prolongavam, a uma crescente desaprovação interna.

De fato, Olmert viria a encerrar sua carreira política a partir dali. Mesmo assim, convém lembrar: depois que Israel aceitou o cessar-fogo patrocinado pela ONU, a fronteira norte do Líbano ficou sob controle muito mais efetivo. O Hezbollah expandiu-se, é verdade, mas não houve mais lançamentos de mísseis contra Naharia ou Quiriat Shmone. Escrevi, em outro artigo (ver no blog), que um dos objetivos da atual guerra travada em Gaza é isolar o Hezbollah e o Irã (seu patrono) na fronteira norte. Em 2006, é claro, o Hezbollah, pela vociferação de Hassan Nasrallah, cantou vitória contra “os sionistas descendentes de macacos”.

Nota importante: a descendência de símios e porcos atribuída aos judeus, pelo islamismo radical (sobre o islamismo radical, ver esse blog) consiste, segundo notou Rivka Iadin (História do anti-semitismo, 1945-1993, org. Leon Poliakov, Lisboa, Istituto Piaget, p. 436 e ss.) em “arrancar a figura humana ao adversário”. Para isso, essa ideologia “apodera-se de versículos dos textos sagrados [islâmicos] que facilmente se prestariam a uma interpretação simplesmente alegórica ou benigna. Por exemplo, uma vaga referência que se encontra no Corão, à transformação dos infiéis malditos em porcos e macacos (surata 5, versículo 60)".

Segue a surata:

Dize ainda: poderia anunciar-vos um caso pior que este, ante os olhos de Deus? São aqueles a quem Deus amaldiçoou, abominou e converteu em símios, suínos e adoradores do sedutor; estes, encontram-se em pior situação, e mais desencaminhados da verdadeira senda

Alerta o Corão antes disso (surata 5, versículo 57):

Ó fiéis, não tomeis por confidentes aqueles que receberam o Livro antes de vós, nem os incrédulos, que fizeram de vossa religião escárnio e passataempo. Temei pois a Deus, se sois verdadeiramente fiéis.

Na mesma surata, versículo 51, é feita a referência aos judeus e aos cristãos. Os fiéis não devem tomá-los por confidentes. Se o fizerem, serão como eles. “E Deus não encaminha os iníquos”.

Deve-se, tenho ciência, ter cautela, nesse ponto. A menção do texto corânico não autoriza extrair dela a conclusão de que o Islã é uma teologia belicista e intolerante. Há inúmeras mediações históricas e exegéticas que devem ser feitas – e os pensadores e teólogos muçulmanos ao longo de centenas de anos o fazem - entre o cânone e sua interpretação. Isto vale para todas as religiões. O que quero salientar é que o fundamentalismo, no caso, (ver no blog, texto sobre o islamismo radical) é a literalidade corânica apropriada para fins políticos. Esta é a doutrina da Sociedade dos Irmãos Muçulmanos, do Hezbollah, do Irã, do Hamas e da Al Quaeda. E constitui, por culpa de ideólogos e clérigos muçulmanos militantes, a base do antissionismo enraizado na cultura árabe e muçulmana moderna. Os exemplos são inúmeros e, por ora, paro por aqui.

De todo modo, a ONU, por meio de seu Conselho de Segurança, novamente comete um atentado aos princípios elementares do direito internacional, ao determinar que um estado soberano e uma organização terrorista cessem suas atividades de guerra. Trata-se de projetar sobre o conflito uma inexistente equivalência política (a sórdida equivalência moral, a mídia já vem tratando de estabelecer), em todos os sentidos promíscua, porque o Hamas não é integrante da ONU. Ele é uma organização terrorista, i.e., comprometida com o terror. Ele não reconhece o direito do inimigo de existir e se declara pronto para destruir sionistas onde quer que estejam. Para quem não leu a Carta de Princípios do Hamas, chamo a atenção apenas para o fato de que nela encontramos as mesmas velhas acusações anti-semitas produzidas no Ocidente: os judeus dominam o mundo, por meio da maçonaria, dos rotary clubs, dos bancos, da mídia e a até da Mãe do Badanha (Mãe do Badanha é uma expressão local - escrevo de Porto Alegre- que quer dizer tudo e qualquer coisa).

Bem, se é assim - e é assim mesmo-, apesar do que escrevem analistas como Demétrio Magnoli, que em recente artigo publicado noEstado de São Paulo, tentou deslindar o cerne do conflito em Gaza apontando para um nexo causal de desastres deliberadamente induzidos por Israel desde 2005, pasmem, justamente o ano em que Israel desocupou completamente a Faixa – nada há a acrescentar sobre a constatação de que, na sua origem, qualquer ação defensiva de Israel está condenada ao repúdio mundial. No Líbano, em 2006, foi assim. E, em Gaza, agora, é assim. É claro que isto dá margem à reflexão. Por que, afinal de contas, o zurro anti-israelense é tamanho? Por que, diante dele, se obscurecem mesmo as mais evidentes demonstrações de barbárie cometidas no planeta. E estou me referindo ao aqui e agora. Finalizando. Fica o desafio: ou o vale-tudo ideológico sancionado pela ONU na sua “censura” a Israel ou a lucidez, que pretende ver a guerra como ela é: uma guerra em (des)caminho, porque iniciada ainda em 1948 e que está longe de terminar. E que Israel não pode perder.

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