"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

O fim da política e a unanimidade

Há a surrada cantiga de uma propagada romântica (que remonta ao movimento chamado romantismo mesmo), que pretende nos impor um sentimento patriótico baseado em idéias de "mesma cultura, povo, língua ou nação". São quimeras numa sociedade hoje de massas desorganizadas, marcada pela atomização de interesses e indiferenciação do consumo, inclusive cultural. Estados nacionas detêm legimitimidade enquanto capazes de organizar as classes, com seus interesses, ou os cidadãos, com suas opiniões peculiares, no que diz respeito à condução dos negócios públicos, como dizia Hannah Arendt. Sua dissolução, que pode se dar em termos ou de ruptura ou de degeneração institucionais, é precedida pela desfiguração desta representatividade. O estado nacional não é de massas, já que estas não possuem um interesse comum. Esse imenso número de pessoas não é integrado em organizações partidárias, sindicais ou profissionais. São compelidas ao voto desagradável -ele atrapalha o feriado - porque este é obrigatório. Se há algo que as une é a repulsa a todos os partidos.

As massas atomizadas e o estado nacional convivem por oportunismo recíproco. Nossos partidos políticos - que não representam nem classes nem cidadãos- pensam ser capazes de manipular as massas - a quem eles aborrecem e que os aborrece- para fins eleitorais. O maior partido político brasileiro, se o voto não fosse obrigatório, seria absenteísta. Os políticos profissionais brasileiros transformaram-se em estamento; eles sabem disso e é, por isso, que são ativos. Sabem que não representam ninguém e contam com a desreprentatividade para continuar administrando seus interesses privados, que não são nacionais. A eles abomina a mera idéia de organizar classes ou cidadãos. Seria péssimo para os negócios. Privatizaram o estado, institucionalizaram a corrupção. Aquilo a que chamam de política transformou-se em negociata com corporações, barganha intestina, voracidade pelo botim da máquina administrativa e narcisismo.

À exceção do PT (que manda no Brasil), nenhum partido político brasileiro possui projeto nacional. O PT possui um projeto socialista de poder e, sobre o socilalismo e sua mutação ao longo da história, pode-se discorrer longamente. Como os demais, no entanto, o PT é intransparente, ele não se apresenta como revolucionário, Quanto aos outros partidos, suas discussões internas são cabotinas, as motivações de suas coligações, inconfessáveis. Utilizam-se dos meios de comunicação para embromar uma sociedade de massas que não possui referências políticas, provocam repulsa muitas vezes. O discurso de todos os partidos é uma ladainha descolada da realidade. A oposição não pode oferecer aos eleitores nada de programático. Os próceres da política são autênticos na falta de autenticidade, na constância do vazio. A presença das mulheres na política tornou-se uma questão de jovialidade e botox. Dilma Roussef, uma gerentona presunçosa, que nunca nada teve a dizer, é a presidenciável petista, por exclusão. Sequer era do núcleo lulopetista originário. Mesmo assim é forte candidata, porque sua base é a bolsa-esmola e terá o apoio do PMDB, do PTB, et caterva , todos aninhados nas tetas da adminstração de Lula, e já aconchavados com sua sucessão. Seu oponente será Serra, também ele forte, não por programa, mas por rotatividade. A campanha será uma disputa de marqueteiros e quem vencer o pleito simplesmente conduzirá o país de modo inercial, em seu autobenefício e fisiologismo, qualquer um refratário ao enfrentamento da pobreza, do analfabetismo funcional, da dengue epidêmica, da criminalidade pandêmica, da corrupção sistêmica, para não falar do atraso econômico e das desigualdades regionais, do combate às oligarquias velhas e novas, elas idênticas aos partidos de onde todos saem.

No Rio Grande do Sul, procura-se amarrar o consenso anti-Yeda em torno de Tarso Genro, essa figura que veio lá do PC do B, que fundou um tal de Partido Revolucionário Comunista para, assim, entrar no PT e, nos seus tempos de ministro de Educação, lastreou amizades com filantrópicas. Aqui me refiro-me à Ulbra, universidade que acolheu um serviçal político de Tarso, Jairo Jorge, num cargo de pró-reitoria, sem que este tivesse qualquer vínculo com a carreira acadêmica. Jairo Jorge, nas últimas eleições municipais, foi eleito prefeito de Canoas pelo PT, numa coligação que incluiu o PP. Escrevo agora, com antecedência de um ano do calendário eleitoral: Genro impôs sua candidatura ao PT gaúcho mediante a divisão do botim estatal com as fações dominadas por Olívio Dutra, Raul Pont e Miguel Rosseto, que assim mesmo rosnam ao ouvir seu nome, pois Tarso não pertence à linha justa trotskysta e nem ao histórico campo majoritário petista de José Dirceu. Ele fracassou em cooptar o PMDB de Simon, mas deve contar com o apoio do PTB de Zambiazi, que irá apoá-lo, em troca de uma parte da máquina pública. O PMDB disputará a eleição para o governo do Estado com candidato próprio, mas não terá candidatos muito fortes ao senado. Como há duas vagas em disputa - uma delas, tida por todos os analistas como certa, será de Paulo Paim -, seria ingênuo pensar que pode haver surpresas neste conserto, com um candidato que inviabilizasse a presença do PMDB na futura base de sustentação política do próximo governo. O PSDB ficará isolado na campanha e Tarso deseja governar o Rio Grande sem oposição, por oito anos. Depois, talvez se candidate a secretário geral da ONU. Fato é que o atual governo do PSDB vem sendo sangrado em vida pelos próprios partidos que o apóiam, pois já preparam sua permanência no poder juntamente com o atual ministro da Justiça.

Estamos testemunhando, no Rio Grande, o fim do que restou da política e a formação de uma nova oligarquia, que reúne PT, PMDB e PTB. Todos estarão acomodados na sustentação que darão a Tarso Genro, se ele for eleito. Assim, a outros títulos, ele deseja agregar mais este: o unânime.

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