"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

O mito dos mistificadores

Em vista do comentário publicado por Juremir M. da Silva, em sua coluna de 2 de setembro último, sobre o título “O mito judaico”, alguns esclarececimentos tornam-se urgentes. O colunista apresenta o livro do historiador Shlomo Sand ( a Invenção do Povo Judeu), de forma acrítica e comete, na pressa de apresentar o historiador como “judeu ... que lutou na Guerra dos Seis Dias”, erros elementares sobre sua biografia. A afirmativa de que Sand viveu dois anos “num campo de concentração” é falsa. O historiador israelense, que é especialista em história da França, nasceu na Polônia em 1946; logo, depois da guerra e, juntamente com seus pais, depois de viver num campo de refugiados na Áustria, mudou-se para Israel em 1948.

Este detalhe seria desprezível, não fosse o contexto no qual o livro de Sand, que trata da origem do povo judeu –uma invenção de historiadores sionistas do século XIX, segundo ele- é apresentado pelo senhor Juremir. Afirmar que o historiador é judeu e professor da Unhiversidade de Tel Aviv parece ser suficiente para nos levar a inferir que Sand é uma autoridade em história judaica, o que é falso, como o demonstraram os especialistas neste campo, Israel Bartal (The Invention of the invention) e Anita Shapira (The Jewish –people deniers), da Universidade Hebraica de Jerusalém. Estes trabalhos não deixam dúvidas de que o livro de Sand é mera farsa historiográfica, recheada de falsidades e meias-verdades. O empreendimento assemelha-se àquele dos chamados “Novos Historiadores”, que atribuíam a causa da Guerra de Inependência de Israel a uma intenção deliberada dos sionistas de expulsarem os árabes da antiga Palestina de suas terras.

Nos dois casos, o que serve de motivação é o desejo de desligitimizar Israel como Estado Judeu. Sand possui vínculos com o antissionismo do extinto grupo Matzpen, que se associava à causa da OLP, a partir da noção de revolução proletária no Oriente Médio. Pouco importa se seu autor é judeu. Antissionistas conhecidos, como Noham Chomsky, Norman Finkelstein e o falecido Arthur Koestler também são judeus de origem. Sand defende a idéia de Koestler (a Décima Terceira Tribo, 1976), segundo a qual os judeus askenazitas não possuem qualquer vínculo com os judeus da época do Segundo Templo. Eles seriam descendentes dos kasares, um povo do Caucaso que se converteu ao judaísmo no século VIII AD. Há outras “revelações”, como a de que não houve exílio de judeus depois da destruição do II Termplo (70 AD) e de que os judeus sefaraditas descendem de berberes judaizados da África do Norte. Seria indispensável que a apresentação de uma obra de historiografia que defende posições bizarras, mencionasse, ao menos, resenhas críticas que a contestam.

Fazer do livro de Sand a palavra final sobre os judeus favorece a mistificações vicárias do judaísmo. Afirmar que os judeus são um não-povo serve ao deleite daqueles que gostariam de provar que não possuem direito histórico à Israel. Para resumir, trata-se de tentar desconstituir ideologicamente a história de um povo que apresenta um inegável vínculo com sua terra de origem há, ao menos, três mil anos.

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