"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

O ovo da serpente

Perguntam-me, leitores de meu blog e amigos, se é de causar preocupação a existência de um antissemitismo de esquerda. Respondo que sim. Por mais que assuste a marxistas intelectualmente honestos - para citar um, o teórico Robert Kurz, que se insurgiu contra essa ideologia rameira, recentemente, em artigo publicado na Folha de São Paulo de 14/01/2009, sob o título A guerra contra os judeus - o antissemitismo de esquerda frequenta universidades, redações de jornais, o grand monde intelectual e partidos socialistas e comunistas. No livro Ensaios sobre o Antissemitismo Contemporâneo: dos mitos e da crítica aos tribunais, que organizei em 2004 (Porto Alegre, Editora Sulina), tratei do tema de forma demorada e genética.

Reuni, nos ensaios A Esquerda Fundamentalista e O Ódio e a Esquiva, material historiográfico para sustentar a tese de que esse socialismo dos imbecis (a expressão é de August Bebel) prolifera em textos de Noam Chomsky, Roger Garaudy e Sergei Thion, todos amados também pelos adoradores do islamismo radical e da ideologia síria do Baath. O ódio aos judeus, que contorna e adorna textos do próprio Marx (ver A Questão Judaica, 1844, Teses contra Feurbach, escrito em 1845, mas publicado em 1888 apenas, A Sagrada Família, 1845 e O Capital, 1867), é parte essencial da doutrina que embala os cânticos do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU, trotskista, ex-Convergência Socialista) e da tendência trotskista do PT O Trabalho. O ex-integrante do POC (Partido Operário Comunista), Marco Aurélio Top Top Garcia, hoje assessor especial para assuntos internacionais do presidente Lula também professa a mesma fé.

Esse grouxomarxismo, que estabele um imbroglio exegético que vai de Marx para Avraham Leon, autor da Concepção Materialista da Questão Judaica (livreto escrito entre 1942 e 1944), considera o sionismo como espúrio rebento da questão judaica européia no século XIX, a qual o jovem Marx teria, em 1844, resolvido. A questão judaica, leia-se o judaísmo, seria, por sua vez, mera "sobra atávica" de uma civilização que se transformou de agrária em industrial, entre os séculos XIV e XIX. Discuto esse assunto com mais profundidade em meus ensaios. Mas advirto: a noção de Marx é precária. Para um contraponto, sugiro duas leituras: o clássico de Fernand Braudel, Le Méditerranée et le Monde Méditerranéen à l'Époque de Philippe II, 1949, vol II, cap. VI, 3 - Uma civilização contra as restantes: o Destino dos Judeus, e o livro de George Lichteim, Marxism: an historical an critical study (1961).

Outros autores reverenciados por essa cambada, além de Chomsky (que não é marxista, mas anarco-sindicalista) et alli, são os mitômanos Ralph Schoenmann, que escreveu uma farsa chamada The Hidden History of Zionism (1988) e Lenni Brenner, autor de The Iron Wall. Zionist Revisionism: From Jabotinsky to Shamir (1984). Tudo isso é abjeto antissemitismo disfarçado de antissionismo.

No livro que organizei (referido acima), desmonto também os delírios antissemitas de José Arbex Junior e George Bourdokan, escritos naRevista Caros Amigos. Engano meu. Não são delírios, mas peças de antissemitismo intencional. Essas criaturas zurram antissemitismo e sua fétida revista é freqüentada assiduamente por textos do falsário trotskista Emir Sader e de João Pedro Stedile, do MST, inter alios.

Pode-se discutir se essas deformações inspiram-se num marxismo mais ortodoxo ou não. Pode-se afirmar - e com isto concordo- que o antissemitismo não foi central na obra de Marx. Dictum mutatis mutandis, podemos retirar o antissemitismo dos textos marxianos sem comprometer sua leitura. Mas não podemos desconhecer que Marx, que escrevia como poucos, várias vezes recorreu ao kit antissemita para ilustrar sua crítica da sociedade.

E mais: não há discussão sobre a funcionalidade antissemita para a esquerda na prática. Stalin valeu-se do anti-semitismo sistematicamente, não se pode esquecer, para entorpecer, por meio da propaganda, a consciência do povo que seu totalitarismo oprimia. A estratocracia soviética que o sucedeu pregava o antissionismo abertamente. E o rebotalho da esquerda atual, desprovido de base teórica, apela mais uma vez, contra a racionalidade e contra o bom senso, para o antissemitismo, mesmo que isto implique em abraçar-se com ideologias obscurantistas, assassinas e militantes, como a do Hamas, Hezbollah e do Irã.

O despropósito das acusações lançadas contra Israel na sua ofensiva contra o Hamas não é mera decorrência da desinformação. O antissemitismo torna-se mais uma vez aceitável para o Ocidente. A velha ferida sangra como a anunciar que está sendo mais uma vez chocado o ovo da serpente.

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