"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

O voto e a impostura

As eleições chegaram. Aos meus leitores - reitero, não muitos, mas àqueles que me acompanham - devo uma satisfação. Tem-me sido difícil atualizar o blog com novos textos, especialmente devido a um fato: nada tenho a acrescentar ao que vem sendo escrito pelos preparadíssimos e bravos Olavo de Carvalho e Reinaldo Azevedo (há outros mais, poucos, sabemos, a quem, citando os nomes referidos, também homenageio) sobre a cloaca moral na qual fomos forçados a chafurdar durante a campanha presidencial. Cloaca aberta pelo Presidente da República in persona, desbragadamente, despudoradamente como diria Cornelius Castoriadis, uma vez que o pudor é uma virtude política e os atentados contra ele viciam a sociedade com a impostura.

É o nosso caso. Com este texto, retorno para um breve comentário sobre o atual estado de coisas, porque considero relevante destacar, embora sempre lembrando que não o faço na pretensão de acostar ao tema que os autores a quem me referi dedicam análises robustas e detalhadas, nada de original. Ênfase aqui, direto aos pontos, portanto.

Jamais uma democracia pode tolerar o grau de envolvimento de um chefe de estado e, com ele, da máquina pública, na perseguição obsessiva pela eleição de seu candidato. O senhor Lula da Silva, seguindo aqui a estratégia de ocupação do poder traçada historicamente pelo PT, intervém de forma pusilânime na condução da campanha de Dilma Roussef, não se abstendo sequer de adotar mentiras repetidas mil vezes como regra de persuasão. Isto se refere ao que ele e sua patrocinada dizem do PSDB com respeito às privatizações, nas quais durante oito anos de governo, a não ser numa tentativa de invasão da Vale, não tiveram coragem de desfazer. E, diga-se, nenhuma delas trouxe prejuízos aos brasileiros. Se estou errado, que me corrijam. Mas não estou, lido aqui com fatos. No entanto, farsantes que são, comunistas que são, adeptos da inversão sistêmica ao nível do discurso, ou se se preferir, do metódico uso da propaganda, que aproxima comunistas e fascistas, corrompem deliberadamente o debate político, com a maior cara-de-pau, tudo com inversões sobre fatos e com desditos sobre o que haviam dito e o que fazem.

Neste ponto ainda, não encontro melhor qualificativo do que vergonhoso para o sub-pedestre falatório sobre a Petrobrás. Tudo o que dizem é mentira. Sei, porque sou informado, que o senhor Eike Batista, é dono de vários lotes do Pré-Sal, adquiridos em leilão a preço vil e que hoje são avaliados em cerca de 70 bilhões de dólares. Privatização do tipo moita, feita em covis que abundam na Corte de Brasília, como mais uma vez ficou claro com a denúncia das operações da quadrilha comandada por Erenice Guerra, na Casa Civil. Que o PT tente acobertar seu sistema de trampas, eu entendo. É da sua natureza e do seu interesse. Mas que uma sociedade aceite conviver em paz com a tramóia institucionalizada, me assusta. Na URSS stalinista, milionários do mercado negro ocupavam as posições mais importantes da KGB e viviam em dachas suntuosas. Isto ocorria porque o povo estava entupido de propaganda, censura e polícia política. Caminhamos para isto no Brasil. Nós já perdemos o pudor, primeiro passo para a perda dos demais valores que tornam as pessoas dignas. As boçalidades orgânicas e seus companheiros de jornada. que habitam nas universidades, nas igrejas, na mídia, enfim, em todo território dos "falantes", como os define Olavo de Carvalho, sabem que essa pacificação bovina resultou de anos de doutrinação esquerdista.

Segundo ponto: a doutrinação a qual me refiro nos enfiou goela abaixo esta tal de Dilma, comunista ferrenha, ontem e hoje, que agora, nos debates políticos diz querer ser presidente com a "graça de Deus". Defensora do aborto, contestada neste ponto, disse ser pessoalmente "a favor da vida", como antes havia dito "ter sido criada na fé católica". Mas, paremos aí. O que nos quer dizer esta senhora com tais escapadelas e subterfúgios. Que ela é cristã? que é contra o aborto? Para a massa ignara que votará nela é esta a mensagem. Mas para as hordas ideológicas que a amparam, mera retórica tática, uma necessidade em época eleitoral. Enganar o povaréu fingindo acreditar no que repudia - em Deus, na inviolabilidade da vida a partir do momento da concepção- é mero expediente tático para quem não possui, por definição, crença alguma. E os comunistas, é só parar para analisar os fatos da história e a pseudológica que os caracteriza, não crêem, por definição, em nada substantivo. Crêem, como os fascistas e nazistas. apenas no devir e no fazer. Não crêem em nada permanente, porque crenças deste tipo são parâmetros mentais para a conduta coerente e a incoerência é a base da pseudológica dos marxistas de todos os matizes. A incoerência é o que eles chamam de "constante transformação da natureza e do homem", de "revolução permanente", de autocriaçãoconstante. Esta dogmática do mal é vírus que se alastrou pelo corpo da sociedade sob o nome de "materialismo dialético". É o senhor Smith da trilogia Matrix, do qual só poderemos nos libertar se conhecermos sua natureza e o enfrentarmos com as armas das virtudes morais, entre elas a do pudor e da denúncia do cinismo.

Ponto três: são tantas e diversas as máscaras com as quais se disfarça esta dogmática mendaz que, quando confrontada com a verdade, ela arregimenta, em suas hostes, porta-vozes para adornar a blasfêmia com o manto da beatitude. Há toda uma galáxia de infiltrados nas instituições do país. Dela saem as falas da falcatrua para confundir o vulgo. Se um clérigo posiciona-se sobre o aborto, seguindo as diretrizes de sua convicção teológica (não digo, fé, mas convicção, que acompanha a fé, mas é mais que expressão de uma percepção da transcendência), surge um segundo, clérigo também - e da mesma Igreja- a desautorizar o primeiro, dizendo professar também uma teologia lícita, mas discrepante da reta. O mundo católico, desde a Conferência de Puebla, convive, em especial na América Latina, com o enxerto da Teologia da Libertação, que não passa de revisão marxista do cristianismo, de uma gnose materialista que desvela, em termos de luta de classes, os mistérios de sua fé. Assim, de seus púlpitos, os boffs e os freis bettos, petistas de manjedoura, sempre estão dispostos a defender o partido contra a Igreja. E, com isto, vemos a vitória da esquerda em ato, não mais em potência, porque no vulgo já está plasmada aquela confusão de mensagens que emana de dentro da própria Igreja.

Quando vem o Papa e fala a bispos brasileiros que aconselhem aos católicos a não votarem em quem defende o aborto e a eutanásia, como Dilma e o programa do PT defendem, como o recente PNH3 do PT defende, lançam-se conta ele vozes de dentro da Igreja com aquela ladainha que escapa deliberadamente do tema e que recomenda aos fiéis da "verdadeira Igreja" a opção preferencial pelos pobres.

Sou judeu, considero o aborto uma abominação, ressalvado apenas o caso em que a mãe corre real risco de vida (é risco de vida mesmo, e não de morte como inventou a novilíngua do politicamente correto, porque o que se está arriscado a perder é a vida). O mesmo vale para a eutanásia. E penso que vida, para os padrões de humanos, inicia na concepção. Logo, quem interrompe a vida do feto pratica homicídio. Não é um caso de saúde pública, como os esquerdistas dizem, como também diziam os nazistas com relação a eutanásia. É um assunto de fundamento moral. E mais, o aborto é o mais vil dos crimes, porque praticado contra quem já se sabe de antemão inteiramente indefeso e frágil. Os abortistas defendem o mal. Judeus e cristãos, defendem o bem. Quando o falsário coloca o tema no plano da questões de "saúde pública", ele nos acena com a possibilidade de incorporarmos na vida social a fraqueza de pessoas confusas com respeito a uma gravidez indesejada. Ele nos acena com a possibilidade do conforto para nossa ausência de respeito à vida. É a banalização da dignidade humana e um dos caminhos para a sua completa supressão, que sempre foi um objetivo de comunistas, em todos os tempos.

O aborto é, sim, ao contrário do que alardeia a alcatéia esquerdista, uma questão política, porque não se trata de um assunto atomizado. Uma sociedade que o recepciona, assim como recepciona o casamento entre homossexuais, rebaixa-se a uma condição de animalidade. E não tenho nada de preconceituoso com respeito aos homossexuais quando afirmo isto. Apenas constato que o homossexualismo é muito, mas muito mais propenso à dispersão do sujeito de seu desejo do que o heterossexualismo. E que a instituição do casamento é fundamentada na noção de permanência e constância familiar, de papéis, como os próprios psicanalistas - de quem discordo em essência de quase tudo- reconhecem, de pai e mãe, masculino e feminino, coisas que são, para dizer o mínimo, fundamentais para a constituição de uma personalidade saudável. E, também para dizer o mínimo, um oxímoro se pensarmos tais coisas no mundo homossexual. Logo, lutar contra o aborto e pela preservação da família são pontos políticos, sim. E os esquerdistas, entre eles lulistas e dilmistas, sabem disso. Tanto que, sempre que podem, investem contra estas "instituições conservadoras".

Voto em José Serra, por obrigação moral e política. Creio que ele produziu uma campanha equivocada e pífia desde o início, porque também, embora não nas questões que elenquei, é um homem de esquerda. Moderado, mas de esquerda. Serra sustentou um debate de gestão e não de opinião com Dilma Roussef. Um sempre foi o reflexo do outro, no discurso, embora na prática, muitos, como eu, sabem que Serra é até exageradamente mais bem preparado para ser presidente do que Dilma, uma ex-terrorista que se abrigou nas burocracias de esquerda durante toda a sua vida. Não tenho, logo, alternativa. Não há ninguém que represente o que penso no cenário político brasileiro. Talvez, depois destas eleições, vença lá quem venha a vencer, o pensamento economicamente liberal e moralmente conservador possa vir a ser, mesmo que timidamente, articulado, em nível político-representativo, no Brasil. Se algum otimismo aindapossuo é este.

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