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"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

O Vulto das Torres: leitura indispensável

Em 11 de janeiro, postei um texto no qual desfiz equívocos que circulam pela mídia e que povoam a mitologia política ingênua sobre o Hamas e a Al Quaeda. O papel que o islamismo terrorista representa como força política no contexto global é incontestável. Assim , torna-se impositiva a atenta leitura do livro de Lawrence Wright, O Vulto das Torres - A Al Quaeda e o caminho até o 11/9, (São Paulo Companhia das Letras, 2007)- para que se tenha um discernimento apropriado deste assunto e de suas implicações. Wright escreveu um esmerado estudo sobre as origens e o desenvolvimento da cultura jihadista e dosmujahidin, que produziu a Al Quaeda de Osama Bin Laden, o Hezbollah, os talibãs e o Hamas. Vencedor do Pulitzer de 2007, o livro possui 506 páginas, escritas num impecável estilo literário-jornalístico. O rigor com que as fontes são apresentadas impressiona. Mais de 300 pessoas foram entrevistadas, entre elas membros da Al Quaeda (A Base) que romperam com Bin Laden, integrantes da Sociedade dos Irmãos Muçulmanos e ex-integrantes da Al Jihad egípcia, da qual emergiu o cirurgão Ayman al-Zawahiri, o atual segundo homem no comando da Al Quaeda. Somente a bibliografia apresenta 213 títulos.

Wright, colunista do semanário americano The New Yorker, viveu e lecionou no Egito e chegou a obter permissão para trabalhar na Arábia Saudita, o país de Osama, o 17º dos 52 filhos do mega-empreiteiro Mohamed Bin Laden. Suas fontes pessoais, todas citadas no livro, foram confrontadas com consultas minuciosas de documentos disponíveis, como a coletânea de memorandos, cartas e bilhetes obtida de um computador da Al Quaeda capturado na Bósnia. Dados indispensáveis foram obtidos de um computador roubado da Al Quaeda em Cabul e adquirido pelo repórter Alan Cullison, do The Wall Sreet Journal. O autor do livro mergulhou, ainda, nos chamados Hermony Documents, os documentos oficiais da Al Quaeda, incluindo-se aí, sua constituição e estatutos, coletados pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, após a Guerra do Afeganistão.

Para realizar o livro, Wright esteve no Paquistão, Afeganistão, Europa e em quase todos os países árabes da África e Oriente Médio, inclusive o islâmico-revolucionário e genocida Sudão (de Hassan al- Turabi) onde a organização de Bin Laden operou nos anos 90. O resultado deste gigantesco eforço jornalístico é um painel, traçado na linha do tempo, que nos apresenta a ideologia jihadista desde a perpectiva biográfica de Sayid Qutb, o teórico mais influente do fundamentalismo islâmico, até a conformação política dos movimentos sanguinários Al Jihad egípcia, do Grupo Armado Islâmico (GIA) argelino, do Grupo Islâmico nos Estados Unidos, da Al Quaeda, do Hezzbollah xiitia libanês, do sunita Hamas - que hoje controla a Faixa de Gaza- até a oligaquia teorcrática iraniania xiita do Irã.

Mais do que um relato, Wright contrói uma acurada narrativa histórica do jihadismo, de suas matrizes salafistas, wahhabitas, corânico-literalistas e da filosofia takfir; revela ainda a face de suas lideranças, desnuda suas tensões internas e delimita no tempo momentos cruciais que marcaram o jihadisno, como a quebra do tabu islâmico do suicídio, pela primeira vez praticado como arma de guerra pelo Hamas, em 1994, num ataque de um homem-bomba contra um ônibus de Tel Aviv.

O livro é de leitura indispensável para compreendermos não apenas a dimensão que tomou a Al Quaeda no contexto dos conflitos internacionais, mas ainda a ideologia que alimenta as organizações extremistas que lutam pela extinção de Israel, apoiadas pelo Irã. Os interessados nessas questões não mais podem lamentar a ausência de referências, em português, sobre o islamismo jihadista O livro de Wright, no qual é exercitado o jornalismo de profundidade, na melhor tradição americana, fornece os elementos centrais para o discernimento de um dos problemas mais complexos e graves da história contemporânea: o terrorismo muçulmano global.

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