"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

Os corvos do Vaticano

Segue a entrevista concedida ao jornal italiano La Tribuna di Treviso, em 29 de janeiro de 2009, pelo frade lefebvrevista Floriano Abrahamowicz. Depois do texto, todo em itálico, faço comentário. A entrevista foi concedida à jornalista Laura Canzian.

Frei Floriano, a comunidade lefebvrevista é antissemita? É verdadeiramente impossível para um cristão católico ser um antissemita. Eu mesmo, por parte de pai, possuo raízes judaicas. Meu sobrenome até sugere isto. Toda essa polêmica concernente às declarações do bispo Williamson refere-se à existência de câmaras de gás, e tem sido fortemente instrumentalizada por objetivos anti-Vaticano. Williamson simplesmente expressou suas dúvidas, e sua “negação” não é a negação do Holocausto – como os jornais estão dizendo falsamente – mas de aspectos técnicos das câmaras de gás. Em seu modo de ver, qual é o “aspecto técnico” das câmaras de gás? Certamente, Williamson foi imprudente ao entrar em discussões técnicas. Na sua (de Williamson) famosa entrevista, pode-se ver que o jornalista o estava obviamente conduzindo para esse aspecto específico. Mas você deve entender que o tema do Holocausto está situado num nível muito mais alto do nível da questão de se saber se as vítimas morreram em câmaras de gás ou por outras causas. O que você pensa? Sobre as câmaras de gás , quero dizer. Realmente, não sei. Sei que as câmaras de gás existiram, ao menos, para desinfecção, mas não sei se foram usadas para matar pessoas ou não, porque não estudei a questão. Sei que, juntamente com a versão oficial dos eventos, há outra versão baseada em observações dos primeiros técnicos aliados que entraram nos campos. Você duvida do número de vítimas do Holocausto? Não, não lanço dúvidas sobre números. Pode ter havido mais do que seis milhões de vítimas. Mesmo no mundo judaico, o número possui um valor simbólico. O Papa Ratzinger diz que mesmo uma pessoa morta injustificadamente é [no sentido de equivaler] muitas, o que é um modo de dizer que é igual a seis milhões. Falar sobre números não muda nada com respeito à essência do genocídio, o que é sempre um exagero. Um exagero? Em que sentido? O número [de seis milhões] é derivado daquilo que a liderança da comunidade judaica alemã disse aos anglo-americanos pouco após a liberação. No calor do momento, ele cunhou um número. Mas como ele poderia saber? Para ele, o ponto importante era que essas vítimas foram mortas por motivos religiosos. Se há uma crítica a ser feita ao modo pelo qual a tragédia do Holocausto tem sido tratada, ela está no fato de dar-se ao Holocausto uma supremacia com relação a outros genocídios. A quais extermínios você está se referindo? Se o bispo Williamson tivesse ido à televisão para negar o genocídio de 1.2 milliões de armênios pelos turcos, não penso que todos os jornais estariam falando sobre suas declarações nos mesmos termos que estão usando agora. Quem alguma vez falou do genocídio anglo-americano praticado nos bombardeios às cidades alemãs? Quem alguma vez falou sobre Churchill, que ordenou o bombardeio com fósforo de Dresden, onde havia não só muitos civis, mas também soldados aliados? Quem falou da força aérea britânica, que, ao bombardear as cidades, matou centenas de milhares de civis? E os israelenses não podem dizer a mim que o genocídio que sofreram dos nazistas é mais sério que o de Gaza, simplesmente porque eles mataram algumas poucas milhares, enquanto os nazistas tomaram a vida de seis milhões. Aí é onde culpo o Judaismo, que se exaspera quando deveria honrar as vítimas do genocídio decentemente. É como se tivesse havido apenas um genocídio na história, aquele dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Parece que você pode dizer qualquer coisa que desejar sobre todos os outros povos exerminados, mas ninguém, num nível global, tem falado nos termos que tem sido usados hoje, depois das declarações do bispo Williamson. Por que ainda tantas pessoas lançam dúvidas sobre o Soah? Por que esse assunto ainda divide pessoas tão viscerlamente? Porque toda a história da humanidade é marcada pelo povo de Israel, que inicialmente era o povo de Deus, e que depois tornou-se o povo do deicídio, e que, no final dos tempos, voltará a se converter a Jesus Cristo. Além disso, tudo é um aspecto do mistério teológico, o qual se configura no fato de que o povo de Deus rejeitou o Messias e ainda o combate. É um mistério da doutrina. O antissemitismo nasce do mundo ilustrado e do mundo Gnóstico. A Igreja, através da história, sempre protegeu os judeus de progroms, como se lê, por exemplo, no livro de Domenico Savino sobre o ritual homicida. O que você pensa da negação do Holocausto? A negação é um falso problema, porque foca nos métodos e nos números e não se endereça à substância do problema. Aqueles que estudaram os dados técnicos, e lançaram certas dúvidas sobre as versões que encontramos nos livros de história, não são antissemitas. Basta lembrar que os primeiros a encontrarem esses dados também foram aqueles que salvaram os judeus, ou seja, os aliados. Você quer oferecer uma mensagem à comunidade judaica? Uma mensagem: como cristão-católico, e acrescento, pelo sangue judeu que corre em minhas veias, eu expresso a esperança de que os judeus venham a abraçar Nosso Senhor Jesus Cristo. Amén.Eu aqui. Escrevi em artigo anterior (ver no blog), que ao reabilitar o bispo lefebvrevista inglês que nega a existência do Holocausto, bem como ao não censurar as declarações do sacerdote publicamente ou se desculpar por elas, o papa Bento XVI estava criando uma situação perigosa em seu rebanho. A ação de recuperar o bispo inglês, um dos quatro ex-cismáticos da Fraternidade ultratradicionalista São Pio X - que só admite o latim nas orações e as pratica segundo os ritos anteriores às reformas litúrgicas de João XXIII e Paulo VI-, não somente provocou a indignação de judeus, como ainda abriu a porta para que lunáticos de batina ou sem batina passassem a defender publicamente seu ódio aos judeus, mesmo fora dos cultos que conduzem em suas paróquias de arquiconservadores, racistas, homofóbicos, islamofóbicos e antissemitas.Esse tal frade Floriano é um lefebvrevista genuíno: acredita no e apregoa o crime dos crimes, o deicídio, diz que reza para que os judeus, que combatem Cristo, o aceitem e, como se não bastasse, discorre alucinadamente, porque é um doido varrido, sobre o Holocausto. Antissemitismo militante católico medieval, que ainda nutre fantasias de fiéis, como já os chamei, ao mínimo pedestres, que são muitos na Igreja. Grave é constatar que o papa, até agora, contempla, a partir de seu ato, suponho, ex cathedra, de radmissão dos cismáticos lefebvrianos (ou seja, ato infalível, porque iluminado pelo espiírito santo, segundo a fé dos católicos), o rosnar antijudeu de uma orda carcomida, que João Paulo II expulsou da Igreja. Não houve ainda censura pública do pontífice a Williamson, muito menos a este alucinado Floriano, por suas difamações e conclusões fajutas sobre o Holocausto. Houve apenas uma manifestação de solidariedade aos "nossos irmãos judeus" e condenação do impredicável Shoá, em 27 de janeiro, dia oficial da Memória do Holocausto, seguida de uma reprovação, mas aí não direta do papa, das posições de Williamson. Os dilomatas do Vaticano anunciaram que o bispo inglês, hoje baseado na Argentina, não abrirá mais o bico sobre o assunto. Mas vai continuar em suas atividades regulares, pois este é um assunto interno do Vaticano.Isto é pouco, muito pouco. O criadouro de corvos reinstalou-se na Igreja. E se Bento XVI não tomar uma atitude forte para acabar com a chocadeira, que já apresentou rebentos como o infeliz frade Floriano, que prega na diocese da região da Padânia (Vale do Pó, nordeste italiano) vai entrar para a história como um retrógrado que tolerou, em seu meio, a mais abjeta e virulenta das blasfêmias humanas: o antissemitismo.

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