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"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

Os métodos farsantes

Ricardo Noblat, em seu blog, publicou artigo de título "Ahmadinejad e sua controversa visita", de autoria do cientista político Bruno Lima Rocha. Sobre ele farei alguns comentários, que me parecem impositivos. O artigo segue abaixo (em itálico), depois minha contestação.

Ahmadinejad e sua controversa visita

A presença no Brasil do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, trouxe à tona uma série de polêmicas, que tanto dizem respeito ao regime integrista de base xiita como a política externa do governo Lula.

Setores de movimentos de homossexuais, de direitos humanos e da comunidade judaica, protestaram contra sua visita em função daquilo que ele e seu regime representam.

De um modo geral entendo as críticas como corretas. É certo afirmar que o governo conservador não respeita as liberdades fundamentais, atenta contra o direito de liberdade religiosa e sexual e persegue minorias.

O que me espanta é o silêncio cínico dos mesmos formadores de opinião que o criticam e nada falam em relação ao visitante anterior, o presidente de Israel Shimon Peres.

Não é necessário listar aqui os crimes de guerra, de Estado e de lesa-humanidade cometido pelos operadores político-militares de Israel contra a população árabe.

Se o governo dos aiatolás iranianos persegue a judeus, muçulmanos sunitas, cristãos de distintos credos, baha’is; a direita sionista financiada pela ajuda externa dos EUA reprime a palestinos, drusos, libaneses xiitas e sunitas e jordanianos.

Em termos de “riscos para a humanidade”, não há diferença substantiva entre o uso da energia nuclear por Israel (que tem a bomba) e o Irã (que pode vir a ter a bomba).

Tais argumentos não se tratam de manobra diversionista, mas de pura constatação dos fatos.

Em tese os protestos tentavam influenciar a política externa brasileira para não aprofundar relações com países que atentem contra valores democráticos.

Afirmo que esta premissa é falsa. Se houvesse esta real intenção, um amplo conjunto de entidades deveria forçar o país a triplicar sua agressividade contra a aberração jurídica chamada Base de Guantánamo.

Os EUA, a partir de sua prepotência imperial, seqüestra suspeitos em diversos países, tortura-os, prende por anos e julga estrangeiros capturados no exterior de acordo com suas próprias leis.

E, para espanto de muitos, tais crimes continuam a ser executados na administração Obama. Infelizmente, a grande mídia brasileira voltara suas baterias simbólicas apenas contra o chefe de Estado iraniano.

Tampouco aqui se trata de apoio ao governo Ahmadinejad. A crítica por esquerda não deveria cair na tentação autoritária de louvar a política integrista.

O Irã ocupa interessante papel no cenário mundial ao contrabalançar a ação colonialista de Israel no Oriente Médio e no Mundo Árabe e Pan-islâmico.

Mas é só. Internamente esse regime reforça valores conservadores, atenta contra direitos humanos e, por sua brutalidade, fornece elementos para posições pró-ocidente.

Ou seja, nenhum pensamento de tipo igualitário poderia somar-se ao apoio ao regime de Teerã e nem a ação imperialista de Tel Aviv.

Infelizmente, Noam Chomsky mais uma vez está com a razão. É lastimável que a bela tradição socialista e humanitária do povo judeu se veja amordaçada pela direita sionista, controladora da opinião externa desta comunidade.

É a mesma infelicidade quando, no Brasil, somos bombardeados por conceitos pela metade e fatos pouco ou mal contextualizados.

Ahmadinejad e o socialismo dos imbecis

O senhor Bruno afirma não ser "necessário" listar os crimes de guerra, de Estado e de lesa-humanidade, cometidos por Israel contra a população árabe. Aqui digo eu, já que o articulista os afirma, considero indispensável, sim, listá-los, para que se possa debatê-los. O sr. Bruno parte da premissa de que tais crimes foram cometidos e são de conhecimento geral. Eu refuto. Não foram e muito menos são de conhecimento geral, mas sim apregoados por uma propaganda sistemática antissemita e antissionista, as quais o articulista, por mera declaração sem fundamento, adere de modo irrestrito.

Não é verdade que a "direita sionista financiada pela ajuda externa dos EUA" - noção que não passa de um rótulo estigmatizante- reprime a palestinos, drusos, libaneses xiitas e sunitas e jordanianos. Somos colocados, aqui, diante de manifesta e pura ignorância , ao melhor, ou, ao pior, diante de simples má-fé, como registrei acima, propagandística. Israel não administra o Líbano nem a Jordânia. Além do mais, não reprime drusos (estes integram as Forças Armadas de Israel, inclusive em altos postos), muito menos a minoria de árabes israelenses ou, ainda, pessoas de qualquer confissão religiosa. Israel é um estado democrático de direito, no qual a liberdade de culto e opinião são irrestritas. Quanto aos palestinos da Cisjordânia, pode-se usar a palavra repressão, em sentido estrito, porque é uma região ocupada militarmente. E de qualquer ocupação, decorre, mesmo que em escala mínima, repressão. Acentuo, entretanto, que a Cisjordânia está sob controle administrativo da Autoridade Nacional Palestina, que possui instituições reconhecidas por Israel, para não falar de sua própria polícia.

Há, sim, toda diferença do mundo, "em termos de risco para a humanidade" entre o uso de energia nuclear por Israel (que tem a bomba) e o Irã (que pode vir a ter a bomba). Israel não pratica chantagem nuclear e não ameaça o Irã, ao contrário do que fazem os aiatolás-mandarins iranianos e seu boneco de ventríloco nazista Ahmadinejad, com relação a Israel.

Os argumentos do senhor Bruno, não caracterizam manobra diversionsionisa, como ele mesmo afirma. Com isso concordo. Mas, muito menos, constatam fatos. Seus argumentos configuram propaganda, da mais rasteira, anti-sionista.

Sobre os protestos contra a vinda de Ahmadinejad ao Brasil, que o senhor Bruno considera premissa falsa para criticar a política externa brasileira de aproximação com o Irã, país que atenta, como ele reconhece, contra valores democráticos: o articulista afirma que o mesmo deveria ser feito com relação a base de Guantanamo, "uma aberração jurídica". Quanto a Guantanamo, aceito tratar-se de excepcionalidade de guerra, decorrente do confronto com o terror da Al Quaeda, que o senhor Bruno omite. Não tivesse ocorrido o 11 de setembro, não haveria Guantanamo. Os EUA estão em guerra contra o terror de Bin Laden. O autor do artigo que refuto é contra esta guerra? Se é, deveria ter exposto seus argumentos, o que não faz. Na mesma linha, não é verdade que os EUA - dita, por ele, uma "superpotência imperial" - se igualam ao Irã Há, neste ponto, avaliação mitômana dada por aceita. Os EUA capturam terroristas contra os quais estão em guerra. Há métodos criticáveis com respeito a forma como os EUA tratam os capturados encarcerados. Mas, lembremos, estamos tratando de terroristas, que são julgados por seus atos, pelas leis americanas. Ou não são terroristas?

Comparar Obama, e mesmo seu antecessor, com Ahmadinejad é simplesmemte ridículo. É o mesmo que comparar Teddy Roosvelt a Hitler. O senhor Bruno, que é cientista político, ciência alguma faz. Ele apenas incorre no relativismo mais pusilâmine.

O articulista afirma ser um homem de esquerda. Digo eu, da mais vulgar e sem cérebro. Seu lugar natural é no PSTU ou no PSOL. E mesmo no PT, que dá respaldo à diplomacia vergonhosa de Lula.

Dizer que o Irã "ocupa papel interessante no cenário mundial ao contrabalançar a ação colonialista de Israel no Oriente Médio e no Mundo Árabe e Pan-islâmico" é uma tonteria descarada. O Irã desestabiliza a região e não tem apoio de nenhum país árabe. Aliás, Israel mantém relações diplomáticas com mais países árabes do que o Irã. Estes o têm como ameaça expansionista xiita. O Irã não representa o tal de Mundo Árabe e Pan-islâmico (o que é isso, afinal?). Ao contrário. Primeiro, porque nem é árabe, é persa. Segundo, porque é considerado uma ameaça para tal "mundo" ( que não é nada unificado, como o senhor Bruno parece dar a enteder). Mesmo a Al Quaeda, que segue o waabismo e a ideologia da Sociedade dos Irmãos Muçulmanos, o considera inimigo. Teerã financia o Hezbollah e o Hamas, que embora distintos em matriz confessional islâmica (o primeiro é xiita e o segundo sunita) convergem na adesão às ideias genocidas (quanto aos judeus) e fundamentalistas de Sayyd Qutb, no seu extremismo fanático, cuja finalidade é extirpar Israel do mapa. Não vejo nada de interessante nisto. Mas sim de preocupante, na medida em que os iranianos perseguem armamento nuclear. Outro ponto: qual é a ação colonialista de Israel no Oriente Médio e no Mundo Árabe e Pan-islâmico? Israel quer anexar o Líbano, a Jordânia, a Síria e o Egito? Para o Egito, devolveu o Sinai, depois de vencer uma guerra provocada por aquele e seus aliados árabes, em troca de um acordo de paz. Fez o mesmo com a Jordânia. E lembremo-nos da obviedade: Israel ocupa militarmente, desde 67, a Cisjordânia (de Gaza já retirou-se unilaterlamente, sem negociação alguma). Israel não anexou a Cisjordânia! E espera obter um acordo negociado com ANP para viabilizar a criação de um Estado Palestino (que nunca existiu). A negociação é difícil, mas real, porque Israel, há 20 anos, reconhece o direito dos palestinos de criarem seu estado. Há muita história para expor aqui, mas não é o caso de fazê-lo num artigo breve. Afirmo, por isso, que sua tese não passa, neste ponto, novamente de clichê esquerdóide. Já que o senhor Bruno se mete de pato a ganso, sugiro a ele leitura básica: A History of Zionism, de Walter Laqueur, Schocken Books, New York, 2003. E ainda: The Arab-Israeli Conflict: the Palestine War 1948, de Efraim Karsh, Osprey Publishing, Oxford, 2002.

É muito fácil desmontar o clichezinho sobre o imperialismo de Tel Aviv. Aliás, este mantra - o imperialismo- parece justificar tudo o que o articulista defende. É demasiando primário.

Noam Chomsky é um grande linguista, mas não passa de um anarquista mistificador e debilóide em política. Na tradição de John Dewey, que era bom filósofo ( não quero dizer aqui que gosto de sua filosofia), em matéria de teoria do conhecimento e da linguagem, mas um horrendo visionário totalitário. Quanto a tais assuntos, parece-me que o senhor Bruno não tem, sequer, informação básica, porque não sabe fazer as distinções apropriadas.

A mídia, que o autor do artigo critíca, faz justamente o contrário do que ele gostaria que fizesse. Em sendo superficial e ao descontextualizar os fatos, provoca no homem comum a sensação de controvéria acerca de uma tirania assassina. Ao seu modo, o senhor Bruno, com seu anti-sionismo abjeto, faz o mesmo.

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