"A grande maioria dos filósofos da ciência de hoje aceitaria , sem maiores discussões, que a teoria do conhecimento é uma disciplina que se ocupa, prioritariamente, da explicitação dos critérios de atribuição de verdade para as proposições descritivas de estados de coisas e das relações entre estados de coisas. Agrave problema implicado pela caracterização de um critério de verdade é que, seja qual for tal critério, essa caracterização não depende apenas de escolhas determinadas pela metodologia das teorias científicas a partir das quais dizemos o que é verdadeiro de quê. Mas, sobretudo, da obtenção de um consenso mínimo sobre a natureza dos estados de coisas que podem ser descritos, e da análise das condições relativas  das possíveis experiências que temos da realidade".

Luis Milman

 
 
  • Em memória de Luis Milman

Shlomo Sand e a trapaça conceitual

Shlomo Sand concedeu entrevista ao colunista Juremir Machado da Silva, em 9 de setembro último, na qual acusa seus críticos de serem sionistas fanáticos. O historiador sustenta que seu livro, “ A Invenção do Povo Judeu”, recebeu elogios de historiadores como Eric Hobsbawn, Marce Détinne e Tony Judt, além do aplausos de Edgar Morin e Noam Chomsky. Para Sand, tais afirmativas são suficientes para criar um ambiente de credibilidade para seu livro. Mas, de fato, apenas demonstram que suas teses coadunam-se mais como a agenda de um panfletário da esquerda pós-sionista israelense do que com o escrutínio rigoroso de um pesquisador sério. Não passo eu, com esta observação, de um sionista fanático? Pelos critérios de Sand, obviamente sim. Pelos meus, certamente não. Sou sionista e sou lúcido, como tantos outros que veem no livro Sand de uma coleção de asneiras e inverdades que somente agradam à mentalidade militante do esquerdismo. Afirmar que recebeu o principal prêmio jornalístico francês para livros de não-ficção e que sua obra desnuda a origem deliberadamente ocultada dos judeus (pelos historiadores oficiais de Israel), não imuniza seu livro contra a crítica que o tem denunciado como mistificação, casos das resenhas sóbrias de Anita Shapira, Israel Bartal e Hilel Halkin.

O fundamento do ataque de Sand à historiografia oficial sionista, como ela a chama, é inveraz. Nos anos 50, época em que teria se configurado o que Sand chama de mito judaico da colonização moderna de Israel, a Enciclopédia Mikhlal, referência, como lembra Bartal, para o ensino do judaísmo em Israel, anotava, no verbete “khasares”, o seguinte: “Uma fonte de consolo e esperança para as comunidades dispersas da Diáspora durante a Idade Média, a história do Reino Kazar possui, hoje, uma aura de pura mitologia. Apesar disto, a história é um dos mais esplêndidos capítulos da história judaica, de um fenômeno que desde então desapareceu totalmente: o judaísmo como uma religião missionária. ... A questão do impacto de longo termo deste capítulo na história da comunidades judaicas do Leste Europeu – seja por meio do desenvolvimento de seu caráter étnico ou por alguma outra forma – é um tema que requer pesquisa ulterior. Mesmo assim, ainda que não tenhamos noção da extensão desta influência, o que nos é claro, hoje, é que esta conversão teve um impacto.”

Assim, uma das principais teses de Sand, a da censura imposta pelo sionismo sobre a relação entre os kasares e os judeus é simplesmente falsa. Assim como é falsa a acusação de que os historiadores, segundo ele, chapas-brancas do judaísmo, como Salo Baron, tenham sustentado que os judeus de hoje descendem diretamente dos judeus de dois mil anos atrás. Esta acusação à “etnobiologia” estimulada pelo sionismo é uma perversão. Nenhum historiador jamais sustentou que haja um sangue puro judeu, como Sand quer fazer crer. Os judeus de hoje são descendentes dos judeus antigos e de complexas tramas de miscigenação com outros povos, tecidas por meio de conversões que ocorreram ainda no tempo que precedeu a destruição do Segundo Templo e que se estendeu pela Era Medieval. A descendência não é de ordem “´etnobiológica”, mas de tradição, cultura e religião, que traça uma linha de longo espectro de continuidade entre os judeus de hoje e do passado.

Por fim, a espécie de laicidade cultural que Sand acusa os judeus de não possuírem é uma invencionice esdrúxula. Não há povo que possua uma cultura desprovida de elementos religiosos. O que seriam os espanhóis e árabes sem o cristianismo e o islamismo? O laicismo é um fenômeno moderno e não se aplica à compreensão da formação dos povos. Sand cria uma trapaça que, se usada para explicar a gênese dos povos, nos reconduziria a uma redução racial da história (a de que um povo é a expressão de uma linhagem biológica) ou a uma redução laicista, cuja conseqüência não é a extinção conceitual dos judeus apenas, mas de todos os povos, inclusive a dos palestinos, que ele tanto defende.

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